Spurs Brasil entrevista Amaury Pasos

O Spurs Brasil mostra em entrevista com o lendário ex-jogador Amaury Pasos todos os detalhes e opiniões da carreira deste que foi um dos maiores jogadores de toda a história do basquete brasileiro. Confiram a entrevista abaixo:

Spurs Brasil – O senhor é mundialmente conhecido por seus feitos com o selecionado brasileiro nas décadas de 1950 e 1960. Qual a sensação de ter levado seu país ao ápice no esporte que praticou?

Amaury Passos – Integrei a equipe representativa do basquete de nosso país entre os anos de  1954 (II Mundial do Rio de Janeiro – Brasil vice-campeão), então com 18 anos de idade, e 1967 (IV Mundial de Montevidéu – Brasil 3º lugar). Poderia ter alongado minha participação nas competições, pelo menos até os Jogos Olímpicos de Munique em 1972, ocasião em que completaria presença em cinco Olimpíadas. Mas em 1967 já era pai de três filhos e havia uma vida adiante para enfrentar, assim deixei de integrar a seleção e as exigências de longos períodos de treinamento e viagens para dedicar-me aos negócios da família. Não me arrependo.

Durante todo esse período conquistei o reconhecimento quase que unânime daqueles que acompanharam minha trajetória e obtive, principalmente, sentimento de gratificação pelos resultados alcançados. Naqueles tempos, muito mais que no presente, o Brasil era o país do futebol, a pátria de chuteiras, época de Pelé, Garrincha e outros. Figurar ao lado daqueles jogadores e ser notado foi algo notável. Recordo que, em 1960 ou 1961, o jornal Gazeta Esportiva publicou o resultado de uma pesquisa feita na Europa para escolher os melhores esportistas do mundo; figurei em 13º lugar, o Pelé em 15º…

Não quero significar que tenha sido melhor que Pelé, mas que o alcance dos feitos do basquetebol brasileiro já era de conhecimento mundial.

Hoje, mais do que naquela época, fico admirado e surpreso de haver contribuído para levar nosso país, integrante do chamado terceiro mundo, à condição de uma das três forças do basquetebol mundial, ao lado dos Estados Unidos e União Soviética.

SB – Quais os fatos que mais marcaram a sua carreira desde que a mesma se iniciou?

AP – Sem dúvida, posso citar os títulos conquistados pelas equipes das quais fiz parte, como os dois campeonatos mundiais e as duas medalhas olímpicas de bronze. Individualmente, a recente inclusão de meu nome no Hall da Fama da FIBA, considerando que a mesma filiou durante seus 75 anos de existência 175 países, os quais através de suas confederações, federações e ligas, congregaram 85.000.000 de jogadores filiados. Desses, apenas nove estão escolhidos e inclusos até a presente data no Hall da Fama. Doravante serão incluídos dois a cada dois anos.

SB – O senhor começou sua vida profissional dentro do basquete atuando como pivô e atuou até como armador. O senhor acredita que essa sua capacidade de atuar em diversas posições o ajudou na carreira na Seleção?

AP – Quando de minha (inesperada) inclusão como jogador da seleção brasileira no Mundial de 1954, fui escolhido para jogar na função de “pivot” por força de minha estatura – 1,91m – considerada elevada naquela época. Tive um bom desempenho junto com meu companheiro Wlamir Marques (então com 17 anos) e fomos considerados os dois melhores jogadores da equipe brasileira, apesar de sermos os mais novos. O Togo Renan Soares, conhecido como Kanela, técnico da seleção, rompeu com toda a tradição até então vigente e incluiu o Wlamir e a mim, contra tudo e todos e mudou, para melhor, o sistema de jogo brasileiro, iniciando assim a chamada “década de ouro” de nosso basquetebol, nunca mais igualada.

Após este início como “pivot”, o surgimento de jogadores de porte mais elevado fez com que me deslocasse para jogar como “lateral”, função que cumpri durante muito tempo, até ser guindado à função de armador. Sem dúvida que a experiência nas três posições me transformou num jogador, talvez não melhor, porém mais completo que os outros.

SB – O senhor poderia nos contar mais sobre a história de seus títulos mundiais pela seleção brasileira?

AP – Disputei quatro campeonatos mundiais: em 1954 no Rio de Janeiro, em 1959 em Santiago do Chile, em 1963 no Rio de Janeiro, e em 1967 em Montevidéu. Poderia ter participado em 1970 na Iugoslávia, o Kanela insistiu para que fosse, mas já havia decidido interromper os longos períodos de treinamento e viagens e jogava apenas representando o Corinthians ao lado de Wlamir, Ubiratan, Rosa Branca, Mical e René, nos Campeonatos do Estado.

Cada uma dessas competições possui um encanto diferente: em 1954 foi a expectativa da estréia, especialmente pelo inesperado de minha escolha para fazer parte da seleção, pois somente fui convocado em virtude do pedido de dispensa de Miltinho, um jogador do Corinthians, e por um pedido ao Kanela de meu técnico Mario Amâncio Duarte do clube Tietê, onde jogava. Quando da minha ida ao Rio para o início dos treinamentos, o Amâncio me disse que provavelmente seria cortado no primeiro corte, mas que esses 10 ou 15 dias treinando junto com a seleção brasileira seriam muito bons para meu desempenho futuro. Eu estava radiante, 18 anos na seleção brasileira! Pois não apenas não fui cortado, mas me tornei titular da equipe ao lado de Wlamir, Angelim, Algodão e Mair, e tive um desempenho notado durante o campeonato jogando como “pivot”, e nos sagramos vice-campeões mundiais, perdendo apenas a final contra os Estados Unidos.

Em 1959, em Santiago do Chile, a emoção de havermos sido campeões mundiais pela primeira vez e eu haver sido considerado o MVP do campeonato foram os fatos marcantes que jamais esquecerei.

Em 1963, mais uma vez na cidade maravilhosa do Rio de Janeiro com seu povo entusiasta e o Maracanãzinho lotado até o teto, foi inesquecível a conquista do bi-campeonato, e mais uma vez tive a honra de ser considerado o MVP do campeonato.

Finalmente, 1967 em Montevidéu, suspeitava um gosto de despedida, terminamos em terceiro empatados com Iugoslávia e União Soviética, devido ao saldo de cestas ficamos com o bronze, olhando o passado disse para mim mesmo: “Quatro campeonatos: dois primeiros, um segundo e um terceiro não está nada mal…”

SB – Atualmente a seleção passa por uma grave crise, não aparecendo nos Jogos Olímpicos desde 1996. Qual a visão do senhor sobre essa situação?

AP – Não vejo nada novo, vejo tudo igual. Você é ainda muito novo, mas tenha presente que estamos no Brasil. Sou patriota, nunca recebi dinheiro para representar meu país, sempre achei um privilégio, amava a camisa que vestia e a bandeira que nos guiava. Mas te digo que estamos num país “meia boca”, aqui nada é sério, a começar dos dirigentes, presidente, senadores, deputados, governadores e prefeitos: a turma do primeiro, segundo e terceiro escalão. Não prestam, e às custas de esmolas como o [projeto governamental] “Bolsa Família” e outras mais, conseguem obter dos 60% de semi-analfabetos e desocupados do país os votos para perpetuarem-se no poder.

Especificamente no basquetebol não foi aproveitado o grande prestígio que o país desfrutou após a “década de ouro”, e nada se fez para incutir e desenvolver sua prática, especialmente na escola pública de todo o país, e incluir as modalidades esportivas como parte fundamental do ensino nas aulas de educação física. Basta ver a vergonhosa classificação que a ONU outorgou a nosso ensino para ver que o desenvolvimento de esportes como complemento educacional é algo que vai demorar muito para se tornar realidade. Basta folhear um jornal diário, mesmo O Estadão e a Folha de S. Paulo, e verificar que a parte dita “esportiva” concentra 90% de seu espaço ao futebol. Nosso presidente “nunca antes na historia deste país…” adota metáforas futebolísticas a todo instante, e o atual “pogresso” por ele propalado é ainda carente de condições de infra-estrutura que possam permitir ao nosso país um crescimento sustentável, não só no esporte como em todos os setores de atividade cultural, industrial e produtiva. Com raríssimas exceções, nada funciona em nosso país: educação, saúde pública, saneamento básico, segurança pública, sistemas judicial e político (que horror!!!), estradas, aeroportos, portos….chega!

SB – Algumas pessoas criticam o ex-jogador Oscar Schimidt por ter preferido defender a seleção a jogar na NBA. O senhor teve propostas para atuar na Liga norte-americana? Qual sua visão sobre a recusa de Oscar?

AP – Sou suspeito para referências ao Oscar. Nada tenho contra sua pessoa, mas tenho contra sua atuação e o legado que deixou. Um companheiro, também campeão mundial, Edson Bispo dos Santos se refere ao Oscar como “o jogador que conseguiu transformar o basquetebol em esporte individual”. De fato, tal foi seu comportamento ao longo dos anos em que utilizou a equipe do Brasil para autopromoção como grande anotador de pontos. Sem dúvida foi um grande finalizador, talvez um dos melhores de toda a história do basquete, cestinha de Jogos Olímpicos e Mundiais. No entanto, não obteve nada, a não ser um terceiro lugar no Mundial das Filipinas e primeiro nos Jogos Panamericanos de Indianópolis, títulos de expressão internacional. Ele mesmo diz que trocaria tudo por uma medalha olímpica…duvido. A sua atuação nas equipes brasileiras foi desestimulante e inibidora para o surgimento de jogadores que mostraram durante esse período condições de formar EQUIPE que pudesse haver levado o Brasil a ostentar uma posição melhor no ranking internacional. Durante a “década de ouro”, o Brasil era terceiro colocado, agora está na décima quinta posição. O basquetebol é um jogo técnico, tático, solidário e de posse de bola definida. Chega de Oscar…

Fui convidado, após os Jogos Olímpicos de Roma, para jogar no Los Angeles Jets, pelo técnico assistente da equipe americana, o primeiro “dream team”; todos os primeiros oito jogadores se tornaram posteriormente profissionais e estão na relação dos 50 melhores de todos os tempos da NBA: Oscar Robertson, Jerry West, Bob Boozer, Walt Bellamy e Lester Lane. Não aceitei, pois seria considerado profissional e não poderia mais representar o Brasil. Além disso, em dezembro de 1960, me casei, e precisava começar a participar dos negócios da família. Não sei se me arrependi.

SB – O senhor ainda mantém contato com o basquete de algum modo? Gostaria de exercer alguma função dentro da CBB?

AP – Não exerço nenhuma atividade dentro do basquetebol. Já fui técnico da equipe do Monte Líbano. Também já desenvolvi projetos para candidatos derrotados à Prefeitura e Governo de São Paulo denominados “Esporte na Escola Pública” e “Demonstração do dia 7 de Setembro”, todos arquivados e jogados fora. A CBB é hoje um órgão como muitos outros; a CBF, o COB, a CBV, a FPB, dominados por políticos que se perpetuam no cargo, obviamente para auferir vantagens pessoais e para os “compadres”, tudo cópia de nosso governo federal. Não consigo lutar contra essas instituições.

SB – Seu contato com Togo Renan Soares, o Kanela, era constante. O senhor poderia nos falar mais sobre esse grande ícone de nosso basquete?

AP – O Kanela é a grande personalidade de todos os tempos do basquetebol brasileiro: idealista, perseverante, psicólogo e temperamental, foi o grande técnico responsável por todos os títulos obtidos pelo Brasil. Nunca mais tivemos um técnico como ele. Não são suficientes os adjetivos para classificá-lo.

SB – O senhor poderia eleger cinco jogadores e um treinador para montar o seu “time dos sonhos” de todos os tempos?

AP – O treinador já está escolhido: Kanela. Os jogadores (não me incluo): Wlamir, Rosa Branca, Marquinhos, Menon e Waldemar.

SB – O senhor acompanha jogos da NBA atualmente? Se acompanhar, qual time o senhor mais gosta de ver?

AP – Acompanho, não assiduamente. Era torcedor do San Antonio, não torcia pelo Lakers por causa de uma antipatia em relação ao Kobe Bryant causada pela sua forma de ser. Mas ele se tornou um bom menino, e agora sua atitude e sua forma solidária de jogar merecem toda minha consideração: é o melhor jogador da NBA, pena que não teve companheiros à altura para ser campeão nesta temporada. No presente, a equipe mais bem estruturada é o Boston Celtics, campeão. Porém, sou torcedor do Lakers, que precisa mudar de técnico e contratar dois bons jogadores. Esse Gasol, como diz minha filha: “Vamos rezar!”

SB – Tiago Splitter é pivô titular da seleção e recentemente rejeitou trocar seu time na Espanha pelo San Antonio Spurs. Como o senhor enxerga essa rejeição, uma vez que o sonho de 9 em 10 jogadores é atuar pela NBA?

AP – É uma decisão pessoal. É um jogador jovem, têm muito tempo pela frente e poderá ainda rever sua postura, já que posse enorme potencial e progredirá bastante. Acho também que a maneira de jogar fora da NBA é benéfica para qualquer jogador, dada a importância que se aprende a ter sobre a posse da bola.

SB – Quais as principais diferenças em geral do basquete na sua época para os dias de hoje?

AP – O porte físico, não só de estatura como de preparação. Os jogadores de hoje são verdadeiros gladiadores, basta observar esse fenômeno do LeBron James, é um monstro e, acima de tudo, é ágil e rápido. Também o Shaquille O´Neal, com seus 2,16m, impressiona pela força física e velocidade. São fantásticos. Não havia exemplos assim em minha época.

SB – Como era o comportamento da dupla Amaury-Wlamir dentro e fora das quadras?

AP – Esta é uma pergunta agradável. Até os dias de hoje o Wlamir é meu amigo. Foi meu companheiro de equipe, companheiro de quarto em concentrações, confidente. Especialmente, temos uma espécie de “contrato”: se você me perguntar quem foi o melhor jogador brasileiro até hoje eu respondo: foi Wlamir. Se você perguntar pra ele, ele responderá: foi Amaury

SB – O senhor se considera um ícone do basquete brasileiro?

AP – Considero-me um dos bons jogadores que o Brasil teve, talvez um dos mais completos.

SB – Como que o senhor iniciou sua carreira? Sua família incentivou desde sempre sua opção em ser jogador de basquete?

AP – Meu primeiro esporte foi a natação, ainda durante a época em que morei na Argentina. Explico: sou brasileiro nato, filho de argentinos, aos cinco anos minha mãe ficou muito doente e voltamos para Buenos Aires. Nadei pela ACM de lá, e disputava as provas de nado livre 50m, 100m, 400m. Fui campeão argentino infantil dos 400m. Fugia do treino de natação para jogar basquete com meus amigos. Meu pai também jogava na ACM, e aos poucos fui trocando a natação pelo basquete. Aos 15 anos já jogava na equipe principal da 1ª divisão, “Buchardo”. Tenho, na Argentina, grandes amigos e grandes jogadores, como Oscar Furlong (que era meu ídolo), campeão mundial de 1950, recentemente indicado junto comigo para o Hall da Fama, aos 82 anos.

SB – Quais as maiores dificuldades encontradas pelo senhor e pelos outros jogadores na época em que o senhor atuava?

AP – Particularmente, a única dificuldade que eu tinha era a de furar as “panelas” dos clubes e seleções; de resto. sempre fui “filhinho do papai”, e nada me faltou. Alguns companheiros não tiveram essa sorte e passaram sempre dificuldades para se manterem.

SB – Qual a grande rivalidade que o senhor acha que o Brasil tinha na época em que o senhor estava na seleção?

AP – Estados Unidos, União Soviética e Iugoslávia. Antes, tivemos que quebrar uma hegemonia dividida pela Argentina e Uruguai durante 15 anos. Isso começou no Sul-americano de 1955, no Chile, quando fomos campeões.

SB – Por fim, gostaria de agradecer sua participação em nome de toda a equipe Spurs Brasil. Muito obrigado mesmo, é um prazer entrevistar uma lenda do basquete brasileiro. Minha última pergunta é: Quem foi o Amaury jogador na visão do Amaury pessoa?

AP – Nunca me vi jogando. Essa é uma grande frustração. As pessoas me dizem que eu era isso e aquilo, mas eu me pergunto: será que era? Obviamente, devo ter sido bom, mas não sei o quanto. No entanto, sempre fui possuído por uma vontade enorme de vencer com minha equipe. Julgo sempre, em todas as ocasiões, haver jogado procurando o melhor para o time.

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Sobre Leonardo Sacco

É jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero. Cravou a opção pelo jornalismo no estouro do cronômetro, quando criou o Spurs Brasil em uma madrugada de domingo para segunda. Escreve para o Yahoo! Esportes e dá seus pitacos no @leosacco.

Publicado em 30/06/2008, em Artigos. Adicione o link aos favoritos. 10 Comentários.

  1. muito boa a entrevista… e boas alfinetadas hahaha

  2. Bela, completa e elucidativa entrevista com o grande Amaury.Que sirva de espelho a todos aqueles que desejam conhecer, estudar e escrever sobre basquetebol em nosso país. Parabéns ao blog pela excelente iniciativa. Um abraço,
    Paulo Murilo.

  3. Roby Porto

    Belissima entrevista com o Amaury. Parabens!
    abrs

  4. Grande entrevista concedida pelo Amaury, conduzida pelo sempre eficiente Leonardo!

  5. Tive o privilégio de jogar com o Amaury na equipe principal do Sírio em 1958. Amaury revolucionou o basquete brasileiro e juntamente com Wlamir com quem fui campeãp brasileiro juvenil em 1952, foram os grandes nomes de uma época difícil de acontecer novamente. Com todo respeito que tenho pelo Oscar, basquete é um jogo coletivo em que a maior satisfação do craque é servir um companheiro. Le, parabéns pela entrevista.

  6. Simplesmente fantástica!!!!!!

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