O Spurs em 2020/2021 – Visão geral

Por Matheus Gonzaga, do Layups & Threes

O San Antonio Spurs terminou a temporada com 33 vitórias e 39 derrotas, marca muito parecida com a da campanha anterior (32-39). Entretanto, não é como se a franquia texana estivesse estagnada – por mais que o desfecho tenha sido quase idêntico, a maneira como as coisas ocorreram foi completamente diferente. 

Rudy Gay tenta arremesso de meia distância durante jogo do San Antonio Spurs contra o Memphis Grizzlies (Reprodução/nba.com/spurs)

Para começar, finalmente o Spurs parece ter assumido uma reconstrução. A média de idade do quinteto titular ao longo da temporada foi de 24,6 anos, uma das 7 menores da liga, e o elenco como um todo foi rejuvenescido. A média de idade na temporada 2019/2020 foi de 26.79 anos, a sétima maior da liga, e em 20/21 o número caiu para 25,3, décima menor da NBA. É claro que veteranos como DeMar DeRozan, Patty Mills e Rudy Gay ainda tiveram papéis proeminentes, e alguns jovens tiveram minutagem reduzida – especialmente Luka Samanic. Mas não é como se San Antonio ainda fosse uma equipe sem direção, como aparentou ser nos anos anteriores.

Não é só na construção de elenco que os times das últimas duas campanhas do Spurs se diferem, e isso gerou um impacto em quadra bem significativo. Se na temporada anterior os comandados de Gregg Popovich tiveram o nono ataque e a 23ª defesa, neste ano o time esteve na 18ª posição ofensiva e na 13ª defensiva. A equipe foi de um ótimo ataque com uma péssima defesa para um ataque levemente abaixo da média com uma defesa levemente acima da média.

Estilisticamente, houveram muitas alterações. O Spurs passou do nono menor ritmo de jogo da NBA para um ritmo mediano, saiu do quinto time que mais usava toques no poste para o oitavo que menos usa (efeito da saída de LaMarcus Aldridge) e se tornou a equipe na liga que mais opera através de “spot ups” – isto é, um jogador infiltra ou arremessa em sucessão a um passe recebido enquanto parado, algo característico de um ataque drive and kick como o de San Antonio. 

Entretanto, alguns aspectos do time de 2020 se mantêm, especialmente o alto volume de bolas de meia distância e o baixíssimo número de arremessos de três pontos. A cada 100 posses ofensivas do Spurs, apenas 28,3 se encerram com um arremesso do perímetro. Trata-se da segunda menor taxa da NBA, e a equipe preto e prata também tem o sétimo pior aproveitamento – 35%). Além disso, o alvinegro tem o maior volume de bolas de mid range por partida (18.1).

Sim, San Antonio tem o quarto  melhor aproveitamento da liga na região, mesmo com o volume gigantesco. A questão é que mesmo assim arremessar de três é melhor! São 1.05 pontos por arremesso além da linha contra 0.88 dentro. É claro que é bom ser eficiente na meia distância, mas o melhor é utilizar o recurso como arma complementar e não como ingrediente ofensivo central. 

Em adição a isso, Spurs tem dificuldade em atacar a cesta, tentando um dos maiores volumes na parte mais distante do garrafão, de onde acerta 42% dos arremessos, e estando abaixo da média em tentativas na área restrita, com aproveitamento de 63%.

Talvez haja também uma taxa de dribles em excesso. Trata-se do segundo time com mais dribles e segundos por toque de bola, o que mostra que a equipe demora para passá-la. Esse excesso de dribles e essa hesitação ao arremessar obviamente dificultam o funcionamento do sistema drive and kick utilizado. 

Apesar do perfil de arremessos sem dúvida ruim e de uma dificuldade nas tomadas de decisões, o Spurs ainda tem relativo sucesso ofensivo. Ou seja, não é horrível nesse lado da quadra, especialmente por dois fatores e um elemento em comum: o primeiro é a baixíssima taxa de turnovers, a segunda menor da liga, e o segundo é uma taxa de faltas cavadas acima da média. O elemento causador disso é DeMar DeRozan.

Mesmo  com o fim melancólico, a temporada de DeRozan foi muito positiva. Foram 21 pontos por jogo em eficiência acima da média, 6,9 assistências para apenas dois turnovers e uma das 10 maiores taxas de faltas cavadas da liga. O astro também foi um dos jogadores de mano a mano mais eficientes da NBA e comandou o ataque nos momentos decisivos.

Com isso, não é surpresa ver que o ataque do Spurs caiu em 8,4 pontos por 100 posses quando seu condutor estava no banco. Com DeRozan em quadra, San Antonio teve desempenho ofensivo comparável ao do Boston Celtics, 10º em eficiência ofensiva , enquanto sem o mesmo o ataque performou similarmente ao do Orlando Magic, 29º no quesito. A “DeMar DePendência” ofensiva é real, mas isso não se estende ao outro lado da quadra.

Há outra característica curiosa: o Spurs foi o quinto pior ataque da liga contra as dez piores defesas da NBA. Estranhamente, a equipe não conseguiu explorar defesas frágeis. Por outro lado, contra equipes defensivas médias, teve a sétima melhor marca da liga. 

Sim, o ataque da equipe texana não funciona sem DeRozan, mas o oposto pode ser dito da defesa. Com o ala-armador em quadra, são 115,5 pontos cedidos por 100 posses, contra 105 nos minutos sem sua presença. Para comparação – 105 de DRTG seria disparadamente a melhor performance defensiva da NBA, enquanto 115,5 seria a segunda pior.

É claro que há fatores de confusão, como os jogadores ao redor, mas boa parte disso se deve sim a DeRozan, claramente o pior defensor da equipe atualmente. No saldo, o Spurs se saiu melhor sem sua estrela em quadra, mas não sei quão sustentável isso é – até porque na maior parte dos minutos sem o camisa 10 o time enfrentou os reservas dos adversários, e não times titulares.

A defesa do Spurs é curiosa. Apesar de no saldo ter sido apenas a 13ª, a mesma chegou a figurar entre as cinco melhores da liga por volta da metade da temporada e apresenta características de uma equipe em desenvolvimento nesse lado da quadra. Tem a sétima melhor defesa da NBA contra ataques os dez piores ataques, mas apenas a décima-nona contra ataques médios ou de elite. De qualquer modo, há algumas tendências promissoras: San Antonio cede o segundo menor aproveitamento de toda a liga para adversários finalizando a 5 pés ou menos da cesta (59.2%), além de ter uma taxa muito baixa de faltas cometidas (17.9 por 100 posses, quinta menor marca)

Isso faz com que os rivais passem por um pesadelo para pontuar perto da cesta contra o time de Popovich. Entretanto, há um problema mesmo nessa região: o Spurs é a segunda equipe que mais CEDE essas tentativas. Em outras palavras, os adversários chegam perto da cesta com incrível facilidade. Mesmo encarando uma das melhores proteções de aro da liga, atacar a cesta ainda é eficiente (jamais ceder tentativas de 59% de aproveitamento ao seu oponente é uma boa ideia). A defesa no garrafão é uma virtude fortíssima, pode ser uma base para próximos anos e tem um impacto defensivo gigantesco – mas é importante dificultar que os adversários consigam chegar lá. 

Talvez, essa facilidade em chegar até a cesta revele uma dificuldade do Spurs em conter infiltrações e uma desvantagem física (possivelmente associada à falta de altura nas alas), e isso deve ser algo a resolver futuramente. Além disso, há uma dificuldade em forçar turnovers no geral- foi o 10º por da liga na estatística.

De qualquer modo, tenho otimismo com relação à defesa do time pensando nas próximas temporadas. Creio que seremos capazes, com alguns reforços e ajustes, de estar entre as 10 melhores da liga por múltiplos anos seguidos. 

Quanto à queda pós All-Star break, eu não tenho tanta preocupação. Há uma questão de dificuldade de calendário, de lesões e certo azar de certos jogadores adversários terem jogos anormalmente positivos. Sim, é claro que esses resultados devem ser considerados, mas acho que trata-se mais de uma normalização após um início da temporada em que as coisas deram mais certo que deveriam do que uma revelação sobre o “verdadeiro nível do elenco”.

No quesito tático, já mencionamos o drive and kick e a altíssima taxa de spot ups. Mas o Spurs também se destaca no altíssimo uso de pick and roll, especialmente com os armadores finalizando. A questão é que eles tipicamente são pouco eficientes, gerando 0,87 pontos por tentativa. Mesmo finalizando com bigs, o resultado ainda é ruim: 1,05 pontos por posse é por si uma marca respeitável. Mas, para uma jogada tipicamente tão eficiente, é um número muito baixo – o segundo pior da NBA. 

A sequência de armadores atacando no pick and roll, atraindo a defesa e, caso não apareça uma finalização, passando para fora, de onde vêm outra infiltração, é a sequência de jogadas padrão do Spurs, o que é bem visível pelo fato de sermos o segundo time que mais bate para dentro na liga: 55 vezes por partida. O resultado de quando a equipe infiltra é até positivo: 1,09 pontos por tentativa, marca bem satisfatória, especialmente considerando que boa parte desses arremessos vem da meia distância.

O problema é que as melhores equipes defensivas tendem a fechar o garrafão, de modo a impedir as infiltrações, forçando o Spurs a arremessar de fora, tentar uma bola saindo do drible de meia distância ou drives muito difíceis, o que explica a performance ruim contra defesas de elite. Para piorar mais ainda, parece que o Spurs tende a fazer uma das duas últimas opções, mesmo caso o jogador que recebe a bola esteja livre para arremessar, o que explica o baixo volume de bolas de três pontos e o ataque emperrado.

Mesmo com os arremessadores ruins, o time do Texas é, como já mencionamos, mais eficiente chutando de fora que na meia distância ou batendo a cabeça com defesas – além de qualidade, falta agressividade para arremessar de três pontos e punir defesas que se concentram em fechar as infiltrações.

Talvez o atual sistema tático sirva como uma base futura, mas é crucial que os jogadores sejam mais agressivos do perímetro caso tenham espaço, e de preferência também mais eficientes. Caso isso não aconteça, defesas que fecharem o garrafão irão matar o ataque do time, como ocorreu na última temporada.

Adicionar chutadores agressivos e com qualidade é algo muito importante para o futuro do Spurs. De qualquer modo, um simples aumento de volume, mesmo mantendo a eficiência ruim, pode auxiliar. Acertar 35% de bolas de três em alta quantidade ao menos forçaria as defesas a se preocupar minimamente com arremessos de fora, facilitando que a equipe infiltre. Jogadores como Dejounte Murray e Keldon Johnson precisam urgentemente parar de hesitar caso estejam livres para chutes.

CP #35 – Fim da linha para o Spurs e perspectivas de recomeço

Está no ar o 35º episódio do podcast Cultura Pop, feito por blogueiros do Spurs Brasil. Nele, Bruno Pongas, Lucas Pastore e Renan Belini falam semanalmente sobre assuntos relativos ao San Antonio Spurs. Desta vez, as perspectivas de futuro após a eliminação são discutidas.

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As decisões importantes que o Spurs tem pela frente também são abordadas.

– Fim da linha em Memphis (01:56)
– O que deu errado na temporada do Spurs? (18:30)
– E quais foram os pontos positivos? (34:26)
– Decisões importantes pela frente – Draft, DeMar e veteranos (41:26)
– Minuto Forbes (1:03:09)
– Coyote Talk (01:05:32)

Ouça o podcast no embed inserido no começo desta nota e aproveite para seguir o Cultura Pop no Spotify e também no Twitter.

Cultura Pop #34 – Play-in, Memphis e as chances de playoffs

Está no ar o 34º episódio do podcast Cultura Pop, feito por blogueiros do Spurs Brasil. Nele, Bruno Pongas, Lucas Pastore e Renan Belini falam semanalmente sobre assuntos relativos ao San Antonio Spurs. Desta vez, o play-in contra o Memphis Grizzlies é tema da análise.

A contratação de DaQuan Jeffries também é abordada.

– É tempo de play-in! (03:45)
– Quem é o Memphis Grizzlies? (05:24)
– Dá pra tirar algo dos confrontos diretos? Profundidade de Memphis preocupa? (20:53)
– Quem são as peças-chave para o Spurs vencer? (31:21)
– Vassell deve ser utilizado, mesmo em má fase? (38:50)
– Duelos importantes no garrafão (47:59)
– Quais as chances reais do Spurs? (51:37)
– DaQuan Jeffries chega ao Spurs (55:18)
– Minuto Forbes (01:00:27)
– Coyote Talk (01:02:13)
– Bônus: avançar aos playoffs ou se agarrar à loteria? (01:10:17)

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Cultura Pop #33 – Qual é o verdadeiro Spurs?

Está no ar o 33º episódio do podcast Cultura Pop, feito por blogueiros do Spurs Brasil. Nele, Bruno Pongas, Lucas Pastore e Renan Belini falam semanalmente sobre assuntos relativos ao San Antonio Spurs. Desta vez, o momento do time texano após a vitória sobre o Milwaukee Bucks é tema do debate.

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A oscilação nas bolas de três e a volta de Lonnie Walker ao quinteto titular no lugar de Devin Vassell também são discutidos.

– Do inferno ao céu; qual é o verdadeiro Spurs? (03:57)
– Bolas triplas são a chave? (11:13)
– Vassell retorna ao banco busca por velha química ou DNP à vista? (18:13)
– Lonnie volta ao quinteto titular e brilha (25:27)
– Pinceladas sobre matchups no play-in (29:18)
– A sequência final e as chances de play-in (35:28)
– Minuto Forbes (41:32)
– Coyote talk [pequena projeção do play-in] (43:14)

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Cultura Pop #32 – Muita OT e pouca vitória

Está no ar o 32º episódio do podcast Cultura Pop, feito por blogueiros do Spurs Brasil. Nele, Bruno Pongas, Lucas Pastore e Renan Belini falam semanalmente sobre assuntos relativos ao San Antonio Spurs. Desta vez, a série de quatro derrotas consecutivas é tema do episódio.

Arte do Cultura Pop sobre foto de DeMar DeRozan e Keldon Johnson

Os desempenhos de Devin Vassell, Gorgui Dieng e Lonnie Walker também são analisados.

– O 0-4 chegou (02:38)
– Problemas no garrafão e perímetro; é fácil parar o Spurs? (08:57)
– Vassell titular – é a melhor escolha? (21:26)
– Lonnie tem boa semana; sem White, seu papel muda? (31:05)
– Dieng já merece ser o reserva imediato (41:03)
– A sequência do Spurs (48:41)
– Minuto Forbes (53:26)
– Coyote Talk (55:03)

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