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Tempo de Spurs

Pop orienta Parker, Duncan e Blair

Respeitável público,

O San Antonio Spurs é o time da moda na NBA. Numa crescente desde a subida de produção de Tim Duncan e acentuada com a volta de Manu Ginóbili e com as trocas, que encorparam bem o elenco, os texanos seguem o caminho inverso de Oklahoma City Thunder e Chicago Bulls, equipes que detém os melhores recordes da Liga, mas que já apresentam ligeira decadência. O Spurs vem de nove vitórias seguidas, enquanto o Los Angeles Lakers é o segundo time mais “quente” da NBA com distantes quatro triunfos em série. Thunder e Bulls perderam suas duas últimas partidas e já sofrem com a incômoda companhia de Spurs e Miami Heat logo atrás.

E não é só o bom momento que leva esperanças aos torcedores de San Antonio. Como disse, as mexidas feitas no elenco foram muito interessantes e é certo dizer que desde 2007 o Spurs não tinha um grupo tão qualificado. Sem exagero; o Spurs conta com 13 jogadores capazes de entrar em quadra e dar conta do recado. Até mesmo os recém-chegados Stephen Jackson, Boris Diaw e Patrick Mills já estão se sentindo em casa graças ao bom ambiente existente no vestiário. Tamanha variedade vem fazendo com que Gregg Popovich faça um rodízio de seus jogadores neste final de temporada, que reserva um sem número de jogos para o time, como já falado em colunas anteriores.

E como diria aquela propaganda, isso não é tudo. Além de qualificado, o elenco é versátil, com vários jogadores podendo executar dupla função. É o caso de Diaw, que joga desde armador-escolta até pivô. Isso tudo é um prato cheio para Pop, que pode se dar ao luxo de montar sua equipe de acordo as características do adversário, como ele sempre gostou de fazer e que o ex-Spur Robert Horry definiu como “estilo camaleão”, ou seja, capaz de sofrer transformações. E se a média de idade é alta, vale destacar a vitalidade dos jovens Danny Green e Kawhi Leonard. O segundo tem jogado com a personalidade de um veterano nos dois lados da quadra e justificado a troca do queridinho George Hill ao final da temporada passada.

Alguns entendedores preferem colocar o Spurs como carta fora do baralho e tratam o bom momento como algo passageiro. A verdade é que poucos acreditavam no time no início da temporada por diversas razões, principalmente após a vexatória eliminação na primeira rodada dos playoffs do ano passado. Mas a situação agora é diferente. Uma queda traumática é capaz de gerar reflexões até mesmo em jogadores que já viveram tudo no basquete e certamente o Spurs jogará de forma diferente o mata-mata agora. O fator Duncan também é diferencial, já que há alguns anos Timmy não fazia uma temporada tão boa. Antes esperávamos que ele crescesse durante a fase decisiva, agora não. Parker, Manu, Jackson, Leonard, Green… essa turma bem ajeitada pode dar bons resultados. Dizem os sabichões adeptos de frases feitas que não ganhamos nada, como se com esse vaticínio estivessem contribuindo de forma abissal para o avanço intelectual do planeta. A verdade é que nunca estivemos tanto na briga pelo quinto anel. O tempo é de Spurs.

A vantagem da vantagem

Boa temporada de Timmy é o segredo do Spurs

A atual temporada da NBA vem sendo a melhor de Tim Duncan em alguns anos. O pivô e maior jogador do San Antonio Spurs em todos os tempos andou recebendo algumas críticas que o colocavam como acabado para o basquete, mas soube dar a volta por cima e, com um bom planejamento da comissão técnica, vem tendo belas apresentações. E os louros deste trabalho são ainda mais louváveis se pensarmos que o ritmo do calendário de 2012 é alucinante, graças ao locaute que espremeu a temporada.

A fase de Duncan é tão interessante que, pelo menos até aqui, poucas foram as vezes que o Big Fundamental foi poupado. A ideia inicial de Gregg Popovich era fazer Duncan jogar o mínimo de partidas possíveis no esquema “back-to-back”, ou seja, em dias seguidos, mas não é o que vem acontecendo. De dezembro até aqui, o Spurs já enfrentou 11 sequências destas e em nove delas Duncan enfrentou as duas partidas em noites seguidas. Não coincidentemente, nestas duas vezes em que teve seu principal jogador ausente, o Spurs foi derrotado: primeiro para o Houston Rockets, em janeiro, por 105 a 102, e depois em fevereiro, na dura queda frente ao Portland Trail Blazers por 137 a 97. Já nos jogos espaçados no calendário, Duncan atuou em todos, tendo estado em quadra em 42 dos 44 jogos do time no ano. O sistema “back-to-back”, por sinal, vem sendo implacável com o Spurs. De 22 partidas realizadas nele, nosso recorde é de 13 vitórias e nove derrotas, ou seja, aí o Spurs perdeu a maior parte dos seus jogos – ao todo são 14 tombos na temporada. Se pensarmos que o calendário apertado obriga um maior número de partidas neste esquema, é bem possível se pensar que o Spurs poderia fazer uma temporada ainda melhor em “condições normais”, com maior tempo para descanso.

O trabalho físico feito com Timmy não é revelado pela comissão técnica, mas é certo que é diferenciado. Atletas já numa idade avançada costumam treinar bem menos – ou até mesmo deixam de treinar -, pois a musculatura não suporta tanta carga. Fora a preparação extra-quadra, que não costuma agradar aos atletas, mas que para Duncan não é um problema, pois sua vida sempre foi regrada e sua vontade de vencer é incrível, mesmo depois de já ter dominado a Liga por anos. Contudo, não esperem que este ritmo seja mantido. Com o fim da temporada se aproximando, logo Pop deverá começar a resguardar seu maior astro. Até porque o calendário, ah, o calendário, continuará sendo implacável com o Spurs. Até 26 de abril, último dia de jogos da época regular, serão muitas viagens e algumas situações bizarras, como jogos em noites seguidas contra o Utah Jazz – um em casa e outro fora – e um “back-to-back-to-back” todo fora de San Antonio, contra Golden State Warriors, Los Angeles Lakers e Phoenix Suns.

Duncan, durante alguns anos, passou de ator principal a mero coadjuvante, se tornando apenas uma opção no Spurs. Sempre reclamei disso, pois sabia que ele ainda tinha muito a dar ao time e é bom poder vê-lo com tanta desenvoltura, arremessando, pegando rebotes e até cruzando a quadra como se fosse um armador. Sua vantagem é a técnica apurada, afinal seu calcanhar de Aquiles sempre foi o físico. E a vantagem que esta vantagem proporciona é o fato de que ninguém desaprende – a qualidade para jogar basquete Duncan sempre terá, só é preciso saber usá-la da melhor maneira possível. Demorou um pouco, mas Popovich parece enfim ter montado o quebra-cabeça. Jogando 29 minutos por jogo, diminuindo o contato físico e buscando os rebotes certos, Timmy ainda é capaz de dar muitas alegrias aos torcedores. Jamais duvidem do velhinho.

2003 é agora

Jackson vibra contra o Nets nas finais de 2003

“Traremos Shaquille O’Neal”. A frase de 18 de junho de 2003 é de Stephen Jackson, armador do San Antonio Spurs, algumas horas depois dos texanos vencerem seu segundo título da NBA. Obviamente, o exagerado vaticínio de Jackson não se confirmou, pois naquela altura do campeonato Shaq ainda era intocável no Los Angeles Lakers e financeiramente seria inviável levá-lo a San Antonio para formar um assombroso garrafão ao lado de Tim Duncan. Mas isso nem foi o mais importante. Passada a euforia pelo título, o Spurs acabou não renovando o contrato de Jackson e o voluntarioso jogador acabou se mudando para o Atlanta Hawks, frustrando este torcedor que vos fala.

Pelo Warriors em 2007, melhor momento da carreira fora do Spurs

Dentre tanta gente boa campeã naquela temporada, Jackson era sem dúvida um dos meus atletas favoritos. Mesmo após sua saída, continuei torcendo por seu sucesso e acompanhando de perto seus passos, como jamais havia feito com qualquer outro jogador que não vestisse a camisa do Spurs. Dois momentos da carreira de Jackson longe do Texas são inesquecíveis para mim: primeiro um negativo, a briga generalizada com torcedores do Detroit Pistons, quando Ron Artest e mais alguns jogadores do Indiana Pacers transformaram as bancadas do The Palace of Albums Hill num campo de batalhas. O segundo, a apoteótica série entre Golden State Warriors e Dallas Mavericks nos playoffs de 2007, quando o time da Califórnia, classificado apenas na oitava colocação da Conferência Oeste, eliminou de forma categórica o badalado esquadrão de Dirk Nowitzki. Até hoje foi a série menos cerebral e mais apaixonante que vi desde que comecei a acompanhar a NBA, daquelas que eu teria prazer em sentar no sofá e assisti-la novamente. Por sinal, até hoje tenho o sexto e decisivo jogo guardado em meus arquivos.

Ainda que tenha tido relativo sucesso no Warriors, Stephen Jackson não parece ter se encontrado fora de San Antonio. Explosivo da maneira que é, se mostrou leal e jamais deixou de falar do Spurs com carinho, mesmo após tantos anos longe do Texas. Sempre que perguntado, respondia que o maior companheiro que teve no basquete foi Tim Duncan. O Jackson que volta ao Spurs não é mais um garoto, conhece bem o que é jogar os playoffs e leva grande vantagem sobre o trocado Richard Jefferson, pois tem o sangue desse time nas veias. Sob a tutela de Gregg Popovich e de Duncan, certamente será bastante útil na caminhada rumo ao penta. Com a formal ida do recém aposentado T.J. Ford também para Oakland, o Spurs ganha um espaço em seu plantel e este poderá ser do francês Boris Diaw, em vias de ser liberado pelo Charlotte Bobcats.

Voltando a Jackson, é chegada a hora de reencontrar os velhos companheiros Manu Ginóbili e Tony Parker, além do já citado Duncan. Coincidentemente, em cinco dias o tricampeão Bruce Bowen terá sua camiseta número 12 aposentada no teto do AT&T Center e certamente lá estará o Almirante David Robinson para aplaudir o velho companheiro. Numa liga tão fria onde o sentimentalismo é colocado bem abaixo das cifras, é bom ver esta gente que tantas alegrias nos proporcionou reunida, contribuindo de alguma forma para o Spurs. Tenho esta certeza: 2003 é agora.

A morte do armador

Kidd e Parker: armadores com diferentes papéis

Respeitável público,

No manual do basquete, a primeira função dada ao armador principal é a de organizar o jogo e distribuir a bola. Este é o que podemos chamar de “armador clássico”, aquele que é responsável por fazer os seus companheiros jogarem. Na NBA de hoje, o melhor exemplo para vestir esta camiseta ainda é Jason Kidd. O veterano do Dallas Mavericks tem uma visão de jogo quase perfeita e cria as jogadas sempre com a primeira intenção de buscar um companheiro melhor posicionado para arremessar.

A preferência por um armador clássico ou um pontuador já me fez presenciar discussões acaloradas e o assunto se faz pertinente, pois tanto o jogador sensação quanto o atual MVP da Liga buscam a cesta a todo momento. O jovem Jeremy Lin, do New York Knicks, tornou-se o queridinho da NBA após uma memorável atuação contra o Los Angeles Lakers, quando, com seus 38 pontos, superou o astro adversário Kobe Bryant e levou sua equipe a uma grande vitória. Para alegria dos que gostam de bola na cesta, Lin tem médias de quase 15 pontos por partida em seu primeiro ano, enquanto distribui seis assistências por noite. Voltaremos a ele daqui a pouco. Derrick Rose, do Chicago Bulls, é outro que também dá de ombros para os passes. O melhor jogador da temporada passada anota 23 pontos e oito assistências por jogo. As estatísticas não chegam a ser um desastre, mas se tornam alarmantes quando vemos que dois jovens armadores de futuros possivelmente brilhantes pensam primeiro em marcar pontos e depois em assistir.

No San Antonio Spurs, Tony Parker nunca foi unanimidade muito em razão de sua avidez pela cesta. Para se ter uma ideia, depois de 11 temporadas na Liga, o francês vem tendo suas melhores médias em assistências agora em 2012, com não muito festejáveis oito passes por noite. Na vitória de ontem sobre o Knicks por 118 a 105, Parker foi o cestinha da noite com 32 pontos, enquanto Lin marcou 20, ficando atrás apenas de Carmelo Anthony, que garantiu 27 pontos para o Knicks. Juntos, os armadores combinaram apenas 10 assistências, sendo seis delas de Parker. Neste ano, mais precisamente no dia 23 de janeiro, Parker alcançou seu recorde de assistências em um jogo ao distribuir 17 passes contra o New Orleans Hornets.

Este “problema” muito mais me parece de mentalidade do que de falta de qualidade. Obviamente que visão de jogo não é algo que se aprenda, ninguém se tornará um Jason Kidd ou um Steve Nash à base de treinamento, embora possa desenvolver este quesito. Me parece mental, pois o ideário do armador-pontuador é algo que parece estar sendo gestado desde a base, sejam nos colégios e universidades norte-americanos ou nas escolinhas e afins por todo canto do mundo. Os que gostam do armador que organiza ainda devem prestar um pouco de atenção em Chris Paul e Deron Williams, embora este último, ao que parece, tenha assumido de vez a condição de cestinha no time do New Jersey Nets. O MVP de Rose e o imediatismo de Lin podem significar para muitos garotos o segredo do sucesso e em contrapartida a morte do armador clássico. Como vaticinou um certo treinador de futebol brasileiro que chegaria um dia onde o esporte bretão não teria mais atacantes, podemos estar próximos do basquete sem armadores. Espero que não.

O aperto e as estranhezas

Respeitável público,

A atual temporada da NBA é uma das mais estranhas dos últimos tempos. Expliquemos. o primeiro fato que a torna incomum é o número de jogos que cada equipe fará: 66, em vez dos habituais 82, graças ao locaute que atrasou em quase dois meses seu início e por pouco não foi responsável pelo cancelamento do campeonato. Este fato fez com que o calendário se tornasse espremido, pois as equipes terão praticamente apenas cinco meses para cumprirem todos esses compromissos. Somando-se às viagens e aos treinamentos, não é exagero dizer que os jogadores quase não vêm tendo momentos de descanso, o que pode ser problemático na reta final da competição. É óbvio que os preparadores físicos atentaram para isso e é bem provável que as planilhas de treinamento não sejam as mesmas de temporadas passadas, quando os espaços entre os jogos eram maiores. No entanto, não dá para se fazer milagre, joga-se quase toda noite em alto nível, o que aumenta o estresse físico e mental.

Seguindo esta linha, o mês de março bate à porta e até aqui qualquer prognóstico que se faça sobre o que acontecerá nos playoffs, mais do que em qualquer outra situação, é pura especulação. A temporada vai avançando e não aparece alguém que coloque embaixo do braço a alcunha de favorito, afinal, com um calendário tão apertado, as equipes vão oscilando entre heroicas vitórias numa noite e derrotas arrasadoras na seguinte. O equilíbrio é tão grande que uma pequena sequência de triunfos pode ser responsável por jogar um time pro topo da tábua de classificação, enquanto um ou outro revés pode colocá-lo muito para baixo. Vejam os casos do atual campeão Dallas Mavericks e do Los Angeles Lakers, duas forças da Conferência Oeste, mas que somente às duras penas se mantêm entre os oito que avançariam à fase final da temporada. O time de Nowitzki e Kidd não consegue se encontrar, vindo inclusive de incômodas três derrotas consecutivas, enquanto Kobe Bryant faz o que pode em Los Angeles, mas não consegue fazer com que o Lakers supere o primo pobre Clippers, que hoje é visto por muitos como a principal força da Califórnia. Mesmo assim, ninguém seria capaz de excluí-los da corrida ao título desde já, ou seria?

No Leste, a situação parece mais polarizada entre Miami Heat e Chicago Bulls. Embora nenhum dos dois me convença, os outros times não me parecem suficientes para causarem grandes problemas a esses dois. O New York Knicks é uma incógnita, tem jogadores talentosos e vem crescendo junto com o garoto sensação Jeremy Lin, mas não tem técnico e esbarra no egoísmo de Carmelo Anthony num claro exemplo de time que perde para si próprio.

O caso das contusões é tão alarmante que para o embate de ontem, contra o Chicago Bulls, o Spurs tinha cinco dúvidas. Manu Ginóbili e Kawhi Leonard não ficaram nem no banco de reservas. Outros times também sofrem desse problema, que poderá vir a ser o diferencial da temporada. Nesses dias sem prognósticos, é prudente que aguardemos.