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Spurs segundo os números: Os bigs

Por Matheus Gonzaga, do Layups & Threes

Parte 1: Os armadores
Parte 2: Os alas

Rudy Gay

Rudy Gay (Reprodução/nba.com)

Rudy Gay tem uma carreira peculiar: ele foi de prospecto promissor a jogador de estatísticas vazias antes de virar uma peça produtiva na rotação do San Antonio Spurs em 2018/2019. Entretanto, o combo forward sofreu um declínio na última campanha, tendo reduzido bastante sua eficiência. Vamos aos números: 

Gay jogou 67 jogos (cinco como titular) e teve médias de 10,8 pontos, 5,4 rebotes e 1,7 assistências em 22 minutos por partida. Seus aproveitamentos foram de 44,6% de quadra (6% pior que a temporada anterior) e 33,6% do perímetro (7% pior que em 2018/2019). 

Acho que o principal número de Gay é a má eficiência arremessando de três pontos. Para um jogador de perímetro complementar como ele, saber chutar de longa distância é crucial. O aspecto mais curioso sobre o aproveitamento do ala é que ele foi pior em tentativas de catch and shoot do que nas do drible. Ele acertou 30,8% de suas tentativas de catch and shoot (que foram a absoluta maioria das tentativas), enquanto acertou metade de seus 30 pull ups. Trata-se de uma amostra pequena, e é bem óbvio que ele não iria acertar 50% de seus arremessos do drible em volume alto, mas isso indica que talvez ele seja melhor criando seu arremesso no perímetro. 

Em outras partes da quadra, trata-se de um jogador bem eficiente: Gay chuta 67,9% na área restrita (um ótimo número, mas seu volume é de apenas duas tentativas por jogo), sendo também um infiltrador ok (51,1%).

Gay chuta cerca de três bolas de meia distância por jogo com aproveitamento de 47,1%, número muito bom para essa área e digno em geral, especialmente considerando que o volume não é muito alto. A maior parte dessas bolas vem do drible e são criadas pelo próprio ala: 156 de seus arremessos de dois pontos foram pull ups, e ele converteu 47,3%.

Falando agora sobre jogadas específicas, Gay foi muito mal no um contra um (0.8 pontos por posse), mas foi excelente operando o pick and roll. Foram 1,15 pontos por posse, número incrível, entre os melhores da liga. Mas foram apenas 79 posses, então não é necessariamente um indicativo de suas capacidades, mas é um bom sinal. Além disso, o ala foi um roll man abaixo da média, mas decente (1,02 pontos por posse). Por fim, foi péssimo no post up (0,7 pontos por posse, mas só tendo uma posse por partida).

Do outro lado da quadra, Gay é um jogador decente. Foi um defensor bem próximo da média da liga em um contra um (permitiu 0,88 pontos por posse), foi ótimo marcando ball handlers em pick and roll (0,5 pontos por posse cedidos, mas em baixo volume), péssimo marcando roll men (1,4 pontos por posse cedidos, entretanto com volume bem pequeno) e mediano fazendo closeouts (0,94 pontos por posse). Além disso, foi um ótimo defensor de posts (permitiu apenas 0,72 pontos por posse, mas em poucas marcadas).

Gay é uma boa peça complementar. É um defensor ok, consegue finalizar no aro, sabe infiltrar, sabe criar seu arremesso e tem um chute de meia distância decente. Por mais que não tenha tido boa eficiência do perímetro, ele não é ruim a ponto de ser ignorado e deixado livre pelas defesas adversárias. Pode ser um bom ball handler secundário vindo do banco e um jogador que, por mais que não crie para os companheiros de equipe, consegue tiros para si próprio e os converte bem, além de não prejudicar o time em nenhum outro ponto do jogo.

Trey Lyles

Trey Lyles (Reprodução/nba.com)

Trey Lyles foi uma contratação tardia do Spurs na última free agency, assinado para substituir Marcus Morris, que, após estar apalavrado com a franquia texana, desistiu de assinar e foi para o New York Knicks. Surpreendendo todo mundo, o canadense foi colocado no time titular logo em sua primeira exibição e manteve o posto em boa parte dos jogos em que atuou: foram 63 partidas em 2019/2020, 53 delas como titular. As médias por jogo do ala-pivô foram de 20 minutos, 6,4 pontos, 5,7 rebotes e 1,1 assistências, com aproveitamento de quadra de 44,6% de 38,7% do perímetro em cerca de três tentativas por compromisso.

O arremesso com certeza é um dos motivos que fizeram o jogador de 24 anos ser titular: seu aproveitamento de 38,7% é muito bom, especialmente para um big man, e isso permite um bom espaçamento de quadra para jogadores como DeMar DeRozan, que precisam dele para atacar a cesta com maior efetividade. Lyles é um especialista da zona morta, tendo tido 46% de aproveitamento no corner em 50 tentativas, mas ainda é capaz de converter em um nível ok fora dela. Seu aproveitamento foi de 35,6% em 118 tentativas no arco. Por outro lado, o ala-pivô não é um dos arremessadores mais dinâmicos da liga, tendo tentado apenas dez pull ups em toda a temporada, algo que limita seu jogo ofensivo e dificulta que ele seja mais que um role player.

Um outro ponto negativo do jogo do ala-pivô é sua incapacidade como roll man: Lyles tem apenas 0,78 pontos por posse na jogada, marca que pior que a de 87% da liga, e que também tem relação com o fato de o canadense não ser um bom finalizador no aro. Ele acertou 62% de seus arremessos na área restrita, marca bem mediana, mas que deixa a desejar bastante para um jogador de sua altura e posição.

Do outro lado da quadra, Lyles foi sólido, tendo sido um defensor mediano de mano a mano, o que é bom para sua posição, pelo simples fato de ele não ser um mismatch marcando o perímetro. Também foi um bom marcador de pick and roll, seja marcando ball handlers (cedeu 0,82 pontos por posse) ou roll men (melhor que três quartos da liga no quesito, tendo cedido 0,74 pontos por posse). O canadense deixou um pouco a desejar fazendo closeouts, mas nada demais: cedeu 1,03 pontos por arremesso na jogada, marca levemente abaixo da média da NBA.

Já em duas capacidades defensivas mais típicas de um big, ele deixou a desejar, tendo cedido 1,12 pontos por post up do adversário (número próximo ao percentil de 20%) e cedendo 63% de aproveitamento no aro para jogadores de outras equipes, um número que é mediano para jogadores em geral, mas deixa bastante a desejar para um jogadores da posição.

Entretanto, existe um aspecto típico de pivôs em que o canadense é bom: rebotes. Lyles teve uma das 30 maiores taxas de rebotes defensivos da NBA e  foi o terceiro jogador do Spurs com mais box outs na temporada, algo muito bom considerando sua minutagem relativamente baixa. Não é como se o jogador fosse um dos melhores da liga no fundamento, mas definitivamente ele é competente nele.

Lyles é um role player limitado, mas é certamente útil na rotação. Jogadores altos e que espaçam a quadra são valiosos na NBA moderna, e o canadense é capaz de fazer isso bem, o que já agrega valor ofensivo ao time, ainda que ele não contribua em outros aspectos nesse lado da quadra. Defensivamente, trata-se de um jogador que consegue marcar bem o pick and roll e não é um mismatch no perímetro, mas, por outro lado, é um defensor de aro e de post ruim. O canadense não é um grande jogador, mas com certeza não é ruim: apesar de diversas falhas, ele tem capacidades importantes para o sucesso de um time da liga em 2020.

LaMarcus Aldridge

LaMarcus Aldridge (Reprodução/nba.com)

Há um ano atrás, esse texto categorizaria LaMarcus Aldridge como um pivô bem tradicional, focado no jogo de costas para a cesta. Mas a história mudou um pouco: tendo incorporado recentemente o arremesso de três pontos em seu arsenal, o camisa #12 se tornou uma peça muito mais útil e versátil em 2019/2020. 

Começando pelas estatísticas básicas: Aldridge jogou 53 partidas na temporada, com médias por partida de 33 minutos, 18,9 pontos, 7,4 rebotes e 2,4 assistências, além de 1,6 tocos. O camisa 12 teve aproveitamento de quadra de 49,3% e 38,9% de eficiência do perímetro em três tentativas por jogo – com sobras a maior marca da carreira.

Apesar de seu jogo ter rumado cada vez mais para o perímetro, Aldridge ainda tem bastante arremessos de costas para a cesta: sua média de 9,7 posses por partida foi a segunda maior da liga, atrás apenas de Joel Embiid. E ele foi realmente eficiente. O camisa #12 do Spurs é uma exceção à regra da liga: considerando sua capacidade de cavar faltas na jogada, ele conseguiu ótimos 1,07 pontos por posse. Por outro lado, trata-se de um passador abaixo da média, tendo um percentual de assistências de costas para a cesta de apenas 6,7% (pior que cerca de 70% da NBA), algo que limita o potencial dos seus toques na região.

Mas a expansão do jogo de Aldridge para o perímetro é uma coisa que libera o potencial de seus companheiros. O espaçamento de quadra promovido por um big arremessador facilita muito infiltrações de colegas e desafoga o ataque. Além dessa utilidade indireta, o ala-pivô também contribui com seu bom aproveitamento nos chutes: 38,9% é uma marca muito boa, especialmente para um pivô, ainda mais considerando o fato de que o jogador do Spurs não arremessa só da zona morta. Na verdade, acontece oposto: 81% das tentativas do camisa #12 foram fora dela, e sua eficiência foi ligeiramente melhor nessas bolas (39,4%) do que em arremessos dos cantos da quadra (37,9%). 

É claro que Aldridge não é um mega criador de arremessos de três pontos (não seria nem justo esperar isso de um jogador de sua posição e altura). Praticamente todas as suas tentativas foram de catch and shoot, mas isso não diminui sua utilidade.

Por outro lado, a insistência nas bolas de meia distância é uma coisa que a diminui. Aldridge foi o segundo jogador de toda a NBA que mais tentou bolas na região e acertou 44,9%, marca que gera menos de 0,9 pontos por posse. Em minha visão, seria bem melhor se ele destinasse a maior parte possível dessas bolas para o perímetro, onde ele conseguiria ser mais eficiente. É claro que alguns deles estão associados ao jogo de costas, e indiretamente são produtivos para o astro por, enquanto ameaças, possibilitarem muitos lances livres e rotas para o aro, mas os originários de spot ups e pick and pops poderiam facilmente ser levados para a linha de três pontos, de onde trariam mais valor para a equipe de San Antonio.

Finalizando no aro, Aldridge é muito competente, tendo acertado 69,2% de seus arremessos na área restrita, marca melhor que 80% da liga. Por outro lado, o ala-pivô teve dificuldades de chegar até lá – só finalizou na região 3,5 vezes em cada jogo.

Esses números nos trazem certamente a informação de que Aldridge é um jogador muito útil ofensivamente. Mas, no outro lado da quadra, a história é um pouco diferente. Não é que ele seja ruim para um protetor de aro em geral: ele cedeu 57,2% de aproveitamento para adversários protegendo o garrafão, marca melhor que mais de dois terços da liga. A questão é que, para um jogador da posição cinco, esse índice deixa a desejar, considerando que defender a cesta é a atribuição defensiva mais importante da mesma – e a que mais impacta no desempenho do time dentre todos os aspectos defensivos do basquete.

Mas creio que existe um outro número que conta ainda melhor essa história: a defesa do Spurs é 4.5 pontos por 100 posses melhor com Jakob Poeltl, seu reserva direto (esse sim um ótimo protetor de aro) do que com Aldridge. É claro que as escalações em que cada um atua influenciam e que o austríaco normalmente defende reservas adversários. Mas o maior responsável pelo rendimento defensivo tende a ser a proteção de aro, e nisso o camisa #12 deixa a desejar.

Por outro lado, o restante de seu desempenho defensivo foi ok. Aldridge defendeu bem as (não muitas) vezes que marcou bno mano a mano (cedeu aproximadamente 0,9 pontos por posse), soube fazer coberturas de pick and roll de forma adequada (cedeu um ponto por posse para roll men adversários, boa marca para a jogada) e foi um defensor razoável de post (0,92 pontos por posse permitidos), mas nada notável. 

Aldridge é um pontuador talentoso, seja no post (especialmente cavando faltas e usando a posição para chegar ao aro) ou arremessando no perímetro. Entretanto, o pivô não é um grande passador, apresenta alguns problemas de seleção de arremesso e certamente apresenta limitações defensivas, que são mais difíceis de cobrir por sua posição. De qualquer, modo trata-se de alguém muito talentoso e que pode ser útil para diversos times da liga fazendo cestas.

Jakob Poeltl

Jakob Poeltl (Reprodução/nba.com)

Talvez eu goste mais do jogo de Jakob Poeltl que eu deveria, mas, por algum motivo, jogadores que cumprem muito bem o papel pedido no esquema me chamam a atenção, e o pivô austríaco se encaixa perfeitamente nesse perfil. Ele foi o reserva imediato de Aldridge na maior parte da temporada e assumiu a titularidade após a lesão do camisa #12. Em 17,7 minutos por partida, o europeu teve médias de 5,6 pontos, 5,7 rebotes, 1,8 assistências e 1,4 tocos, tendo tido aproveitamento de 62,4% nos arremessos de quadra e tenebrosos 46,5% nos lances livres.

Ofensivamente, Poeltl é limitado: o jogador é completamente nulo enquanto arremessador (ele nem tenta jump shots), e sua função basicamente se resume a fazer corta-luzes e a cortar para a cesta, além de distribuir alguns passes ocasionalmente. Mas o jovem pivô executa isso muito bem.

Poeltl faz ótimos bloqueios, sendo o segundo jogador do Spurs com mais screen assists (isto é, corta-luzes que levam a cestas), com a marca de 3.6 por partida. Se ponderarmos esse número pela minutagem, o pivô não se torna apenas o líder de San Antonio na marca, mas também o quarto colocado em toda a NBA (considerando apenas jogadores com no mínimo 30 partidas), com média de 7,2 por 36 minutos. É claro que jogar com um finalizador no nível de DeRozan ajuda nesse quesito, mas o oposto também é verdade: corta-luzes do camisa 25 podem ter uma relação significativa com a eficiência de jogadores como o próprio DeRozan, Derrick White e Rudy Gay como ball handlers no pick and roll.

Essa capacidade de fazer bloqueios torna Poeltl extremamente eficiente como roll man, conseguindo não só facilitar para seus companheiros, como já mencionado, mas também sendo um bom finalizador na jogada. Sua marca de 1,31 pontos por posse é melhor que a de 82% da liga, mas isso é menos impressionante considerando que se espera números altos de jogadores da posição 5.

O austríaco também é ótimo cortando para a cesta. Seu aproveitamento é bem competente, mas abaixo do ideal para um pivô: Poeltl gera 1,35 pontos por posse em cortes (marca melhor que a de 63% da liga). Mas, para mim, o mais interessante nessa jogada é sua capacidade de conseguir essas tentativas, já que, para se liberar perto do aro, é necessária uma boa leitura de jogo e movimentação. Nesse aspecto, o europeu é excelente, tendo a décima quinta maior taxa de cortes para a cesta da NBA.

Como é possível imaginar pelos números anteriores, o jogador do Spurs não é um bom finalizador no aro para sua posição, convertendo 69,2% de suas tentativas (marca pior que dois terços dos pivôs com 100 ou mais tentativas na área restrita). Esse número já traz um ótimo retorno para a equipe, então não é um problema tão grande, mas está longe do ideal.

Além disso, Poeltl é um bom tomador de decisões, tendo a oitava melhor razão de assistências para turnovers da NBA dentre os pivôs. Ele não é exatamente um grande passador, tendo apenas a 27ª marca da liga em percentual de assistências dentre jogadores da posição, mas é certamente capaz de não cometer erros ao ter a bola em mãos.

Nos rebotes, porém, ele não é um grande talento. No lado ofensivo, ele até se sai bem, tendo percentual de rebotes acima da média dos pivôs, mas, no defensivo, acaba estando bem abaixo dela. Trata-se de um dos “cincos” da liga com menor DREB%. Isso tem um impacto de cerca de 2% no percentual da equipe nessa medida, o que é significativo, mas não tão grave: mesmo com ele em quadra, o Spurs é um time acima da média nessa medida.

O maior talento de Poeltl é a proteção de aro. Adversários chutaram apenas 49,6% perto da cesta quando defendidos pelo austríaco, SEXTA MELHOR marca de toda a NBA. O europeu é um dos melhores protetores de aro da liga, que é a função defensiva mais importante. O resultado disso? Com ele em quadra, o Spurs tem defensive rating de 108,9. Sem ele, a marca é de 112,7. Essa é a diferença entre a oitava melhor e a sexta pior defesa da NBA. Novamente vale frisar que isso não se deve só a um jogador, mas a proteção do aro é a parte defensivamente mais relevante do basquete, e o pivô é um dos melhores da liga nisso. Portanto, ele certamente impacta bastante nesse número.

Na maioria dos outros aspectos defensivos, Poeltl também se sai bem: nas (poucas) vezes em que foi forçado a marcar no perímetro em mano a mano, conseguiu ceder apenas 0,76 pontos por posse, e cedeu 1,02 pontos por posse para rollers em pick and roll (número decente considerando que trata-se de uma jogada normalmente muito eficiente). Como defensor de post, ele é digno, cedendo 0,92 pontos por posse (marca que para defensores de post é bem mediana, mas é o suficiente para que post ups contra ele não valham a pena).

Mas não se trata de um jogador perfeito defensivamente. Poeltl tem problemas com faltas, o que dificulta que ele tenha grande minutagem (3,8 faltas por 36 minutos, marca maior que 80% da NBA), além de ter tido desempenho ruim marcando jogadores físicos como Zion Williamson, Montrezl Harrell e Joel Embiid, cedendo mais de 50% de aproveitamento para todos eles.

Poeltl tem o maior net rating do Spurs. Isto é, é o jogador que tem o maior saldo de pontos da equipe comparando quando está em quadra e quando está fora. Ele definitivamente não é o melhor jogador do time (MUITO longe disso), mas talvez seja o mais eficiente em seu papel (que é pequeno). Isso passa muito pelo fato de ele ser um ótimo screener, ser um jogador inteligente se movimentando, tomar boas decisões com a bola e ser um excelente protetor de aro. Porém, trata-se de um jogador limitado, com péssimo desempenho em lances livres, que não é um grande finalizador no aro nem consegue converter jump shots, tem problemas com faltas e sofre contra jogadores físicos. Ainda assim, vejo seu saldo como bem positivo e ele como capaz de ser o quarto ou quinto titular de um grande time caso corrija alguns de seus problemas.

Spurs segundo os números: Os alas

Por Matheus Gonzaga, do Layups & Threes

Parte 1: Os armadores

Bryn Forbes

Bryn Forbes (Reprodução/nba.com)

Bryn Forbes (Reprodução/nba.com)

Bryn Forbes é provavelmente o segundo jogador mais odiado pela torcida do San Antonio Spurs (atrás apenas de Marco Belinelli). Seu skillset limitado e seu tenebroso desempenho defensivo fazem com que sua titularidade e até sua presença na rotação tenham sido alvos de muitas críticas. Mas será que o arremessador é tão ruim assim? Será que ele realmente inútil?

Forbes jogou 63 jogos na temporada 2019/2020, tendo sido titular em 62. Em 25 minutos por partida, o arremessador teve médias de 11,2 pontos, dois rebotes e 1,7 assistências, com aproveitamento de 42% de quadra, 39% de três pontos (número bom e em volume considerável) e 83% da linha de lance livre.

Vamos começar pelo ponto forte de Forbes, seu arremesso: em suas 131 tentativas na zona morta, ele teve 40,5% de aproveitamento, enquanto teve 38,8% em 343 tentativas acima do arco, números muito bons, ainda que não de elite. Outro fato positivo é sua capacidade de atirar vindo do drible: em suas 90 tentativas de pull up threes, o camisa #11 teve excelente aproveitamento de 40%,enquanto teve 39,5% em situações de catch and shoot (281 tentativas).

Mesmo quando marcado, Forbes tem bom aproveitamento: converteu 37,8% em arremessos contestados. Esses números indicam que, ainda que não seja um dos melhores da liga, o jogador do Spurs é um arremessador talentoso e versátil.

Mas isso é basicamente tudo de positivo a se dizer sobre ele: Forbes não é capaz de comandar pick and rolls, nem pontuar no 1×1… Talvez ele apresente certo potencial infiltrando ao atacar closeouts da defesa, já que teve um aproveitamento sólido arremessando em infiltrações e finalizando no aro, mas nada digno de nota.

Defensivamente… algumas estatísticas avançadas já nos passam uma ideia: Forbes foi considerado o oitavo pior defensor da liga segundo o Defensive Player Impact Plus-Minus do site Wins Added, além de ser o sétimo pior defensor da NBA segundo o Defense Box Plus-Minus. Mas não é necessário ir tão a fundo para ver o péssimo desempenho do jogador nesse lado da quadra: a defesa do Spurs é seis pontos por 100 posses melhor com ele fora de quadra (defensive rating de 108,6) do que com ele dentro (defensive rating de 114,8)!

É claro que isso também se deve a rotações e aos companheiros de time em cada uma das situações, mas juntando essa última informação com a péssima performance indicada pelas métricas de desempenho avançadas, há fortes indícios de que ao menos parte da responsabilidade cai sobre Forbes.

Falando sobre aspectos mais específicos da defesa, o jogador cedeu 1,23 pontos por posse em isolações, número absurdamente ruim (mas com um asterisco bem grande pelo fato de ter marcado apenas 26 posses, uma amostra pequena). O ala-armador foi ainda pior fazendo closeouts: adversários em spot up tiveram 1,23 pontos por posse contra ele (o que faz com que o atleta do Spurs seja pior que 90% da liga), algo que indica uma coisa constatada pelo teste visual: Forbes muitas vezes fica perdido na defesa e deixa jogadores adversários livres. Nas demais categorias defensivas, ele é abaixo da média da liga, mas não tão ruim (não que isso signifique muita coisa).

Forbes não é um jogador inútil: trata-se de um arremessador muito bom e que é capaz de converter bolas de 3 em diversas circunstâncias. Por outro lado, o jogador tem extrema dificuldade na defesa, sendo um dos piores nesse lado da quadra de toda a NBA, algo que reflete diretamente no desempenho defensivo da equipe. A questão sobre ele é quanto o problema excede o valor de sua produção ofensiva (que é boa). Talvez em uma equipe defensiva mais forte, o ala-armador pudesse ser escondido e não comprometesse tanto. Mas, no Spurs atual, trata-se de um jogador com impacto ruim.

Lonnie Walker IV

Lonnie Walker (Reprodução/nba.com)

Lonnie Walker provavelmente é o jogador do Spurs com maior teto, e talvez um dos com menor piso. Em alguns momentos, ele pareceu uma estrela em desenvolvimento, principalmente na virada que ele liderou sobre o Houston Rockets. Em outros, chegou a lembrar jogadores como Iman Shumpert. Vamos investigar no que o ala-armador se saiu bem e no que ele precisa melhorar.

Começando pelo básico: Walker jogou 61 jogos na temporada (12 como titular, oito deles na bolha em Orlando), tendo tido média de 16 minutos por partida, 6,4 pontos, 2,3 rebotes e 1,1 assistências, com aproveitamentos de 43% de quadra e 40% do perímetro (em apenas 1,7 tentativas por partida). 

Uma primeira questão do jovem ala-armador do Spurs é sua agressividade excessiva em finalizações. Seu atleticismo é incrível, e ele tem muito potencial no quesito, mas atualmente isso faz com que ele tente jogadas muito difíceis e não consiga convertê-las bem. Nos seus 99 arremessos em infiltrações na temporada, Walter teve um tenebroso aproveitamento de 38,4%, pior número do Spurs e décimo primeiro pior de toda a liga entre jogadores com volume significativo. Por outro lado, o camisa #1 ao menos não é propício a desperdiçar a bola ao infiltrar e está um pouco acima da média encontrando companheiros nessa jogada.

Essa dificuldade em finalizar se reflete diretamente em seus aproveitamentos de arremesso: Walter teve aproveitamento de apenas 56,5% no aro e apenas de 27% (!) na parte mais distante do garrafão (mas em cerca de apenas uma tentativa por partida). Esses números ruins em finalizações também fazem com que o jovem tenha desempenho muito ruim operando o pick and roll: em cerca de uma posse por partida, o jovem só conseguiu 0,58 pontos, número péssimo (e ocorre um fenômeno parecido também na transição).

Enquanto arremessador. Walker demonstra muito potencial: seu volume é muito baixo para tirarmos conclusões definitivas, mas o aproveitamento de 40% é extremamente promissor, ainda mais considerando que 70% das tentativas vêm fora da zona morta, e nessas ele têm 44,3% de acerto. Por outro lado, ele deixou a desejar em tentativas no corner (34,5%, mas foram apenas 29 tentativas). A maior parte dos chutes do jovem veio de catch and shoot, e não temos amostra o suficiente para falar de seu potencial em pull ups (foram 14 tentativas, e ele teve aproveitamento digno de 36%), mas no geral ele se projeta como um bom atirador (inclusive tendo bom aproveitamento arremessando de handoffs), ainda que no momento não saiba criar seu arremesso.

No lado defensivo, Walker tem potencial. Cedeu 0,86 pontos por isolação marcada (melhor que 58% da NBA), mas não é exatamente um jogador polido e tem dificuldades em algumas leituras – foi pior que 70% da liga marcando pick and rolls e fazendo closeouts. O ala-armador brilhou em alguns matchups defensivos, especialmente contra Harden (isso já está se tornando comum de falar quando o assunto é jovens do Spurs), cedendo aproveitamento de menos de 0,8 pontos por posse para o Barba, o que novamente destaca sua incrível capacidade de defesa mano a mano.

Walker é um prospecto no sentido mais puro da palavra: há potencial ali, mas ainda trata-se de um talento bruto e que precisa de muito polimento (algo que é bem normal, considerando que a última temporada foi a primeira em que ele fez de fato parte da rotação), especialmente na seleção de arremessos ao finalizar no aro e em algumas leituras defensivas. Entretanto, ele demonstra já ser um passador digno, um ótimo defensor de mano a mano e um bom arremessador (que pode se tornar mais perigoso ainda caso desenvolva um jogo de pull up). Ainda é muito cedo para saber se o ala-armador pode ser uma estrela ou se seu teto é um 3 and D que consegue às vezes atacar a cesta, mas de qualquer modo ele se projeta como um jogador muito útil para o Spurs nos próximos anos.

Marco Belinelli

Marco Belinelli (Reprodução/nba.com)

Agora chegou o momento que todos esperavam: a hora de falar de Marco Belinelli, o jogador mais adorado pela torcida do Spurs. Não preciso dizer que a frase anterior está inteiramente carregada de ironia: o italiano é muito desprezado pelos fãs do time texano, e sua presença na rotação da equipe causou muitas críticas. Mas será que os números trazem algum motivo para justificar seus minutos? Será que ele agrega valor em algum lugar?

Como sempre, vamos começar pelo básico: nas 57 partidas que atuou – todas como reserva – Belinelli teve médias de 15,5 minutos, 6,3 pontos, 1,7 rebotes, 1,2 assistências e apenas 0,3 turnovers. Seus aproveitamentos foram de 39% de quadra e 37% da linha de três pontos (de onde se deram mais de metade de suas tentativas).

Belinelli é um arremessador: esse é seu papel e o motivo de ele estar na NBA. Por mais que para jogadores que também tenham outros papéis o aproveitamento de 37% seja bom, para um especialista como ele esse número deixa a desejar. Esse aproveitamento é uma junção de dois números bem diferentes: Belinelli teve 44% de aproveitamento dos cantos da quadra e de apenas 35% above the break, de onde se deu a maior parte de suas tentativas. Além disso, a maior parte delas foram catch and shoots. Basicamente, nessa temporada, ele se tornou um arremessador de zona morta, que não cria muitos arremessos do drible (tem sucesso mediano quando cria), um papel que executa bem, mas que é pequeno.

Um ponto que me irrita muito no jogo dele é a insistência em pull ups de meia distância – o ala tentou 76 arremessos do tipo na temporada e teve aproveitamento tenebroso de 33%, que não seria bom nem se essas bolas valessem três pontos e é muito pior quando valem dois. 

Mas existe um ponto bem positivo no jogo do italiano: ele não desperdiça a bola e sabe fazer boas leituras passando, tendo uma razão de aproximadamente quatro assistências para cada desperdício de bola. Não se trata de um playmaker, mas é um jogador que sabe manter a movimentação da bola e não cometer erros graves, algo que explica (mas não justifica na minha opinião) o motivo de ele ser usado por Gregg Popovich.

Na defesa, ele foi bem ok: o Spurs teve uma defesa três pontos por posse melhor com ele em quadra do que com ele fora, algo que pode não ter tanto a ver com ele, mas indica que ele não é tão ruim. De qualquer modo, Belinelli foi um marcador razoável de mano a mano e fazendo closeouts – nada demais, mas nada horrível. Entretanto, ele foi muito mal marcando pick and rolls (percentil 17% da NBA). Como um todo, parece um defensor bem mediano (o que, sendo sincero, é bem melhor do que eu imaginava).

Belinelli é um jogador extremamente limitado e um arremessador bom, mas mais limitado à zona morta, e que tem problemas de seleção de chutes e é mediano no outro lado da quadra. Não é tão ruim quanto parece – especialmente por saber cuidar bem da bola, mas não acho que deveria estar na rotação de uma equipe em reconstrução, especialmente quando isso tira minutos de jogadores mais jovens – e possivelmente até melhores hoje – como Lonnie Walker e Keldon Johnson.

Keldon Johnson

Keldon Johnson (Reprodução/nba.com)

É complicado avaliar a temporada de Keldon Johnson: o calouro passou quase toda a temporada na G-League, como normalmente ocorre com os novatos do Spurs, e apenas participou de 17 partidas na NBA. Desse modo, é extremamente difícil falar sobre sua performance, e tudo que for dito no texto deve ser lido com um asterisco devido à amostragem pequena.

Na última temporada, as médias do calouro foram de 9,1 pontos, 3,4 rebotes, 0,9 assistências e 0,8 roubos de bola em 18 minutos por partida. Johnson teve ótimos aproveitamentos de quadra (59,6%) e de três pontos (59,1%), que absolutamente não são sustentáveis, mas podem ser um bom indício.

Sua capacidade de finalização é incrível: ele teve 70% de acertos no aro em 40 tentativas. Outro aspecto positivo do jogo do jovem foi sua capacidade de cavar faltas infiltrando – ele sofreu faltas em 18% das vezes que bateu para a cesta, número que seria o melhor da NBA caso ele tivesse uma amostragem significativa. Além disso, foi capaz de acertar 50% dos tiros de quadra nessa jogada, um número que não é notório, mas já é acima da média da liga.

Quanto ao arremesso de três pontos – onde Johnson teve números inacreditáveis – seus splits foram ótimos tanto na zona morta (de onde se deu a maioria das tentativas) quando fora dela. Do drible, só tentou dois chutes, então é impossível tirarmos qualquer coisa disso.

Falando sobre jogadas específicas, o novato converteu arremessos em seis dos dez pick and rolls que operou e também foi muito bem cortando para a cesta e na transição (nas tabelas das demais jogadas disponibilizadas pela Synergy Stats, ele sequer apareceu).

Defensivamente, Johnson se mostrou excelente fazendo closeouts (melhor que 77% da liga) – e abaixo da média marcando o pick and roll (mas novamente, amostras muito pequenas). O sinal mais promissor da capacidade do ala, entretanto, vem dos dados de on-court/off-court: o defensive rating o Spurs com o novato em quadra foi de 103,2, número de elite e nove pontos por 100 posses melhor que a média do time na temporada. É claro que esse valor não deve ser sustentável, mas é um bom indício.

A amostragem de partidas de Johnson é muito pequena, mas o fato de quase todos os sinais serem positivos é extremamente promissor. Ainda que seus números sejam insustentáveis, eles são sinais de um ótimo arremessador de catch & shoot, capaz de infiltrar e ótimo defensor off-ball. Não existem certezas sobre o novato, mas ele aparenta ter bastante potencial.

DeMar DeRozan

DeMar DeRozan (Reprodução/nba.com)

DeMar DeRozan é possivelmente o jogador mais difícil de avaliar da NBA: ele tem forças e fraquezas extremamente bem definidas e que compõem um perfil de jogo muito peculiar. Curiosamente, essas forças e fraquezas não exatamente as imaginadas pela maioria do público.

Vamos então aos números básicos do franchise player do Spurs: em 68 partidas, teve médias de 34,1 minutos, 22,6 pontos (líder do time), 5,6 assistências (líder do time), 5,5 rebotes (quinto do time), 2,4 turnovers (líder do time) e um roubo de bola. Além disso, teve aproveitamento de quadra de 53%, maior marca da carreira e número altíssimo para um jogador de sua posição. Juntando isso com sua capacidade razoável de cavar faltas e boa de converter lances livres, ele obtém uma TS% de 60,3% (número que está entre os 20% melhores da liga, o que é ainda mais impressionante considerando que ele não arremessa bolas de três pontos).

Mas como o camisa #10 consegue esses números tentando arremessos tão pouco eficientes? Seu jogo de meia distância é tão bom assim?

A resposta é não. Não me entenda mal: DeRozan é um arremessador muito acima da média em eficiência de mid-range, o que é bem impressionante considerando seu altíssimo volume (foi o terceiro jogador que mais tentou esses arremessos na liga inteira). Mesmo assim, o aproveitamento dele é de 45,9%, excelente para bolas dessa região, mas que não é um número bom para ações ofensivas em geral (0,92 pontos por posse não é horrível e nem torna a jogada inutilizável, mas definitivamente não é o suficiente para ser um foco ofensivo). Como o astro consegue pontuar tanto de forma tão eficiente sendo que não é excelente em uma das jogadas que mais tenta?

A resposta está no garrafão. O aspecto mais subestimado em relação ao jogador do Spurs é sua capacidade de finalizar no aro: DeRozan teve 70% de aproveitamento (entre os 20% melhores de toda a liga) próximo à cesta em volume bem considerável. Esse número, junto de seu desempenho digno em floaters, faz com que ele seja um dos melhores da NBA em infiltrações. Ninguém infiltrou nem converteu mais arremessos infiltrando que o camisa #10, e o mais impressionante: ele fez isso com o absurdo aproveitamento de 56,7%. Apenas o MVP Giannis Antetokounmpo teve aproveitamento de arremessos melhor nessa jogada. Por outro lado, o ala-armador não se destaca em conseguir lances livres nessa situação, sendo apenas próximo à média da liga. 

Além de ser eficiente arremessando, o franchise player do Spurs também sabe cuidar da bola, desperdiçando ela apenas em cerca de 5% das vezes que bate para dentro, número melhor que o de mais de 80% da liga.

A já mostrada habilidade de DeRozan em infiltrações possibilita diversos passes para seus companheiros de equipe, e o atleta do Spurs sabe acioná-los bem, ainda que não em nível de elite. Ele foi o sétimo jogador que mais assistiu aos jogadores de seu time a partir de infiltrações, mas isso se deve mais a seu volume de tentativas: seu percentual de assistências na jogada é mediano, algo que indica que ele é um passador capaz, mas apenas isso.

Esses números em infiltrações fazem com que o ala tenha uma capacidade incrível de pontuar em isolações (ainda que em volume baixo): em cerca de duas tentativas por jogo, o veterano conseguiu 1,13 pontos por posse (mesmo só tentando arremessos de dois pontos e cavando faltas). Esse número é O MAIOR DE TODA A NBA entre jogadores com no mínimo 100 tentativas. Nem James Harden é mais eficiente (ele tem 1,12 pontos por posse). Vale ressaltar de novo que o volume de tentativas do jogador do Spurs é baixo, mas ainda assim é um número muito impressionante.

DeRozan também é um jogador de elite operando pick and rolls. Seus 1,05 pontos por posse são a sétima maior marca da liga inteira (mínimo 100 posses), e nesse caso seu volume é bem alto.

É inegável que se trata de alguém extremamente talentoso, mas é válido levantar o questionamento de quanto ele realmente melhora a performance ofensiva de um time. Quando não tem a bola nas mãos, DeRozan, por não saber arremessar de três pontos, pode acabar comprometendo o espaçamento da equipe e travando as jogadas. De qualquer modo, isso não pareceu prejudicar o Spurs em quadra na temporada passada. O ataque do time com ele em quadra teve rating de 111,8, enquanto sem ele caiu para 108, uma diferença bem significativa (a título de comparação, 111,8 é o offensive rating do Utah Jazz, nono melhor ataque da liga, enquanto 108 é bem próximo do do Orlando Magic, o vigésimo terceiro).

Isso pode levar o leitor a perguntar. Se DeRozan é tão bom ofensivamente assim, como o Spurs não vai longe com ele?

A questão é a defesa. Se por um lado o astro é extremamente subestimado ofensivamente, sendo um dos melhores criadores de arremessos e finalizadores da liga, muito pouco é falado sobre quão ruim ele é defensivamente.

Eu já falei sobre quão melhor o desempenho ofensivo do Spurs é com ele em quadra, mas na média, a equipe tem saldo de pontos melhor sem ele. Isso ocorre porque a equipe texana tem defensive rating melhor em cinco pontos sem ele em quadra: Considerando apenas os minutos com ele, o time teria a vigésima sétima defesa da liga (pior que a do Golden State Warriors, por exemplo), enquanto considerando apenas os minutos sem o mesmo, a defesa do time subiria para o quinto lugar, bem próximo ao nível do Boston Celtics.

É claro que esse último número provavelmente não seria sustentável em uma amostragem maior e que as falhas defensivas de sua equipe com ele em quadra não são exclusivamente sua culpa (dividir muitos minutos com Bryn Forbes certamente não ajuda no defensive rating do time com ele em quadra), mas esses números mostram uma tendência forte de que DeRozan é um defensor ruim.

Se você não está convencido ainda, aqui vão outros números: o astro cedeu 1,16 pontos por posse marcando em um contra um, marca pior que a de 85% da liga (foram apenas 37 posses, mas é um indício bem preocupante), além de ceder 1,05 pontos por posse marcando ball handlers em pick and roll (pior que 90%) e 1,18 em spot ups de adversários (pior que 85%). Por outro lado, ele se saiu curiosamente bem marcando handoffs e perseguindo adversários entre corta-luzes.

É muito esquisito avaliar DeRozan. Ele é ofensivamente uma estrela, talvez até uma superestrela. Suas capacidades de finalizar, de infiltrar e de criar arremessos (seja no um contra um ou no pick and roll) são de elite e batem de frente com qualquer jogador da liga. Por outro lado, trata-se de um péssimo defensor on-ball (um dos piores da liga) e horrível em closeouts (só ver os números de spot up dos adversários), algo que diminui muito o seu valor. Isso pode ser parcialmente culpa do esquema e dos jogadores a sua volta, mas com certeza ele tem uma boa parcela de responsabilidade. Se o Spurs quiser manter seu franchise player e subir de nível, essa questão defensiva precisa ser resolvida urgentemente.

Spurs segundo os números: Os armadores

Por Matheus Gonzaga, do Layups & Threes

Dejounte Murray

Dejounte Murray (Reprodução/nba.com)

Dejounte Murray começou a temporada cercado de grandes expectativas, já que havia se tornado o jogador mais jovem a ir para um time de defesa da temporada em 2017/2018 (antes de perder toda a temporada 2018/2019 por uma lesão no joelho). O armador do San Antonio Spurs não teve tanto sucesso quanto alguns esperavam no último ano, mas passou longe de ir mal: jogou em média 25,9 minutos em 66 partidas (58 como titular), tendo 10,9 pontos por jogo, 46% de aproveitamento nos arremessos de quadra, 37% em bolas de três (mas tentando menos de duas por jogo) e 80% em lances livres. Além disso, registrou médias por jogo de 5,8 rebotes 2º da equipe), 411 assistências (2º) e 1,7 roubadas de bola (1º do time e 9º da liga).

A maior questão sobre Murray é sua efetividade no ataque: o Spurs teve Offensive Rating de apenas 109,2 com ele em quadra, enquanto o número sobe para 111,4 com ele no banco, uma diferença significativa, mas não gigante. Vale ressaltar que isso não está apenas associado ao desempenho do armador, mas também aos jogadores com quem ele costuma a jogar junto.

Nesse lado ofensivo, sua maior dificuldade foi enquanto playmaker principal da equipe. Por um lado, sua razão de assistências para turnover foi bem digna e similar à de jogadores como Goran Dragic e De’Aaron Fox. Porém, por outro, quando Murray está em quadra sem Demar DeRozan (ou seja, quando Murray é o ball handler principal do Spurs) o Offensive Rating da equipe cai para péssimos 105,4. Novamente, vale dizer que isso não se deve apenas ao jovem, mas parece indicar que talvez seja melhor utilizá-lo como um condutor de bola secundário do que como armador principal.

Um ponto que corrobora com isso é seu desempenho arremessando após conduzir um pick-and-roll: conseguiu apenas 0,75 pontos por posse finalizando, número bem ruim e que mostra várias dificuldades para ele enquanto armador.

O arremesso também sempre foi um ponto questionável, mas o jogador demonstrou evolução nesse ponto na última temporada: ele dobrou seu volume de bolas de 3 (ainda que continue baixo) e teve boa eficiência, que foi ainda melhor se considerarmos o aproveitamento do armador em Catch & Shoot Threes: 41%, número muito bom. Caso Murray consiga manter essa porcentagem subindo o volume, isso provavelmente vai melhorar muito seu impacto ofensivo no Spurs.

Na meia distância, Murray é um bom arremessador: acerta 46%, número bom para a jogada, mas que não justifica que ele tente tantas bolas do tipo. Sob um viés de eficiência, seria melhor que direcionasse essas bolas para o perímetro.

O ponto mais preocupante do jogo ofensivo do armador e que reflete suas dificuldades armando é a finalização perto à cesta: o jovem acertou apenas 39,6% dos chutes na floater range, número bem ruim, e 55% dos arremessos na área restrita, o que revela dificuldades em executar arremessos no aro. A título de comparação, esse desempenho na área restrita é o 12º pior da NBA dentre os 102 jogadores com 200 ou mais tentativas na região. Esses números servem como prenúncio e estão diretamente relacionados a uma outra questão: sua dificuldade para bater para dentro.

Murray acerta apenas 44,1% de seus arremessos infiltrando, o que o coloca perto do percentil 25% da liga dentre os jogadores com 200 ou mais tentativas (isto é, ele só tem aproveitamento melhor que apenas 25% deles). Por outro lado, o armador cria muito bem para os companheiros na jogada, tendo o dobro de assistências do que de turnovers na mesma (16º da NBA inteira nessa razão).

Defensivamente, Murray se destaca: acho que o matchup mais notório dele é o contra James Harden, no qual ele cedeu apenas 0,77 pontos por arremesso do Barba (já considerando lances livres que com faltas) ao ceder apenas 16% de FG, um número incrível e segunda maior marca da NBA, atrás apenas de Lu Dort. O jovem também teve muito sucesso marcando nomes como Donovan Mitchell e Paul George e anulou diversos armadores não estrelas, como Jordan Clarkson, Lonzo Ball e Emmanuel Mudiay, que sofreram muito na mão do jogador do Spurs. Por outro lado, ele não foi bem marcando alguns dos melhores armadores da NBA, como Chris Paul e Damian Lillard.

No geral, Murray parece ter potencial para ser um guard stopper de elite, já sendo bom e tendo tudo para se tornar um dos melhores jogadores da liga em dificultar a vida de armadores adversários.

Um outro ponto relevante associado a isso é que o armador é um excelente defensor de isolação (o que explica os números contra Harden). Nas 48 posses de 1 contra 1 que o armador defendeu, ele cedeu apenas 0.75 pontos por posse. O jovem também teve sucesso (mas menos brilhante) ao marcar pick and rolls, handoffs e fazendo closeouts. Por outro lado, ele sofreu um pouco para correr atrás de arremessadores em corta-luzes, mas trata-se de uma falha bem pontual.

No geral, Murray é um jogador que já é um excelente defensor e tem um potencial muito grande para se tornar ainda melhor, possivelmente um dos melhores marcadores de armadores de toda a liga. No ataque, ele não parece ter a habilidade de ser um condutor de bola principal, sofrendo para conduzir pick and rolls, infiltrar e criar o seu arremesso. Por outro lado, caso o desenvolvimento de seu arremesso se confirme, isso se soma à sua capacidade de passar bem em drives e permite que ele seja usado como um ball handler secundário: parcialmente como um condutor de bola e parcialmente como um arremessador.

Para finalizar, uma curiosidade: Murray foi o jogador que mais se locomoveu em quadra em média em toda a NBA, correndo 52 metros por minuto.

Derrick White

Derrick White (Reprodução/celebion.com)

O caso de Derrick White é curioso: o jogador é considerado parte do young core do Spurs, mas na realidade já tem 26 anos, estando mais perto da idade de Bryn Forbes (27 anos e não considerado parte dos jovens do elenco) do que de jogadores como Lonnie Walker, Keldon Johnson e Dejounte Murray. Por outro lado, o camisa #4 é o mais completo desses jogadores. Vamos aos números básicos: nos 68 jogos que jogou (apenas 20 como titular), o armador teve médias por partida de 24,7 minutos, 11,3 pontos (46% FG e 37% 3PT, em cerca de 3 tentativas por jogo), 3,5 assistências, 3,3 rebotes e 0,9 tocos, sendo o líder da NBA entre guards na categoria.

Na bolha, White foi o jogador do Spurs que mais evoluiu, tendo médias por jogo de 18,9 pontos, cinco assistências, 4,3 rebotes e 0,6 tocos. Manteve um aproveitamento de quadra similar (45.5%) e teve uma grande alteração em seu jogo: arremessando oito bolas de três por partida (quase três vezes mais que antes), ele acertou 39,3%, marca excelente considerando o volume. Claro que se trata de uma amostra pequena, mas esses números indicam que o armador talvez tenha potencial para ser mais que um bom jogador complementar.

Falando de aspectos mais específicos, White sabe cuidar bem da bola: tem uma razão de assistências por turnovers de 2,71, estando entre os 10% melhores da liga. Por outro lado, nos minutos sem DeRozan, o Offensive Rating do Spurs com o camisa #4 em quadra cai.

Por outro lado, o ponto mais forte ofensivo de White pode indicar um potencial para ele ser um armador primário: sua capacidade de infiltrar é incrível. O armador está entre os vinte melhores da liga tanto finalizando quando passando nessa situação, algo importantíssimo para um condutor primário na NBA moderna.

Esses números em drives são curiosos pois, no geral, White não é o melhor finalizador no aro: conseguiu poucos arremessos na área restrita e acertou aproximadamente 58,8% dos mesmos. Por outro lado, na floater range ele se sai bem: dentre jogadores com 100 ou mais tentativas, o camisa 4 teve o oitavo melhor aproveitamento da liga inteira (51,4%), além de estar por volta do percentil 70% de toda a NBA em percentual de faltas cavadas nas drives (7,7%). Esses dois fatores explicam o sucesso do jogador do Spurs finalizando nas infiltrações mesmo não sendo o jogador mais imponente fisicamente.

A capacidade de criação de White também passa por ele saber operar um pick and roll: ele tem 1 ponto por posse na jogada, número apenas ok no vácuo, mas extremamente bom considerando que finalizações de ball handlers não tendem a ser tão eficientes nesta jogada. Ele foi o décimo primeiro finalizador mais eficiente na jogada em toda a NBA (mínimo de 200 tentativas), tendo estado logo à frente de lendas como LeBron James e James Harden.

Quanto ao arremesso de três pontos, o perfil de White antes da bolha era bem claro: bom arremessador de catch and shoot em baixo volume (39% em duas tentativas por partida), mas que não arremessa bem do do drible e nem costuma a tentar esses chutes (32% em uma tentativa por partida). em Orlando, como já dissemos, o armador arriscou muito mais bolas do perímetro, mas essa mudança se deu principalmente nos arremessos de catch and shoot. O camisa #4 manteve volume semelhante em pull ups tentados e não foi eficiente (tentou um total de 11 na bolha e acertou apenas três).

Por outro lado, em arremessos de “pegar e arremessar”, houve uma mudança drástica: White teve 45 tentativas totais nas suas sete partidas (subindo de duas para mais de seis a cada jogo) e converteu 19 delas, com ótimo aproveitamento de 42,2%. Esses números, por mais que a amostra seja pequena, me parecem possíveis de manter: a eficiência e o perfil dos arremessos do jogador não parecem ter mudado tanto, aparentemente ele apenas foi mais agressivo com as tentativas ao receber a bola, além de ter convertido ligeiramente melhor os chutes.

A defesa é também um ponto forte de White. O primeiro ponto que chama atenção obviamente é sua capacidade de cavar faltas de ataque: o jogador do Spurs foi o segundo (empatado com Montrezl Harrell) que mais o fez em toda a liga, com um total de 30, atrás apenas de Kyle Lowry, com 34. Curiosamente, 11 dessas 30 faltas que White cavou foram nos sete seeding games que o camisa #4 jogou em Orlando, o que indica que talvez se trate de um aspecto que está em desenvolvimento e que pode melhorar ainda mais.

Entretanto, a defesa de White não se resume apenas a atrair charges: o jogador se saiu extremamente bem marcando diversas estrelas da liga. Limitou Damian Lillard a 0,96 pontos por arremesso, Luka Doncic a 0,97 e Russell Westbrook e James Harden a 0,85, algo que indica que ele também é um guard stopper, assim como Murray.  Por outro lado, o armador sofreu principalmente ao marcar Chris Paul e Devin Booker.

Mas defesa não é só sobre marcar estrelas: em geral, White é ótimo marcando ball handlers: cedeu 0,84 pontos por posse defendendo em um contra um e 0,92 combatendo armadores em pick and roll. Por outro lado, seus números marcando ações como handoffs e spotups foram bem medianos, algo que indica que o jogador se sai melhor como defensor on-ball que off-ball.

No geral, White é um jogador muito melhor que suas médias indicam: trata-se de um glue guy, jogador que faz um pouco de tudo de forma muito eficiente, e creio que seja capaz de ser titular (ou talvez até o terceiro melhor jogador) em um contender, mesmo que não uma estrela. O camisa #4 é capaz de ser um armador primário (apesar de não ser fantástico no papel pela falta de arremesso do drible) devido à sua capacidade de cuidar da bola, de infiltrar e operar pick and rolls, e também pode ser usado como jogador off-ball, com seu bom arremesso de catch and shoot. No outro lado da quadra, ele se projeta como um excelente defensor de armadores adversários, se saindo muito bem marcando jogadores com a bola e tendo tido sucesso contra várias estrelas.

Patty Mills

Patty Mills (Reprodução/facebook.com/pattymillsforstarter)

O arremesso é o ponto mais importante do jogo do australiano, que tem um perfil típico de shooters: Mills teve excelente aproveitamento da zona morta (46% em 87 tentativas) e razoável no restante dos tiros de três (36,3% em 314 tentativas). Se saiu melhor em arremessos de catch and shoot, tendo acertado 40,2% das suas 244 tentativas (contra 34,5% em 142 nos arremessos do drible). O jogador também se destaca em arremessos de handoffs, registrando 1,11 pontos por posse em 93 tentativas.

Mas Mills não vive apenas de seu arremesso: por mais que o armador tenha tido dificuldades de chegar na área restrita (93 arremessos em toda a temporada), ele converteu com bom aproveitamento: 67,1%, além de ter tido bons números em drives, por mais que em volume baixo: converteu 56,1% dos seus arremessos infiltrando.

Esses números de infiltração também servem como prenúncio para sua boa capacidade de operar um pick and roll: Patty teve 1 ponto por posse em 186 tentativas, um número excelente (como falamos na parte de White) para o contexto da jogada.

Defensivamente, o caso do armador é curioso: Mills se sai bem marcando no um contra um e em pick and rolls, mas cede muitos pontos em spot ups (1,14 pontos por posse), algo que pode indicar que, por sua baixa estatura, ele pode ter dificuldades em fazer closeouts e contestar bolas de três.

De qualquer modo, sua presença não piora a defesa do Spurs: na realidade, a mesma é quatro pontos por 100 posses melhor com ele em quadra (provavelmente isso está associado a outros fatores, mas indica que ele não tem um impacto negativo significativo defensivamente), e o mesmo acontece ofensivamente. No geral, o Net Rating do australiano é o segundo maior da franquia texana: 9,2 (isto é, o time vence em média por 9,2 pontos cada 100 posses com Mills em quadra).

Mills é um excelente role player: Ótimo arremessador para catch and shoot, capaz de arremessar de handoffs e de comandar o ataque em momentos (bom operador de pick and roll e que tem um pull up digno), se tornando um perfeito sexto homem. Defensivamente não prejudica, apesar da dificuldade com closeouts.

Spurs pode tirar valiosas lições da bolha

Se por um lado a bolha montada em Orlando para a retomada da temporada da NBA terminou com um gosto amargo para o San Antonio Spurs, que viu suas chances de classificação durarem até a última rodada, mas acabou encerrando sua sequência de 22 aparições consecutivas nos playoffs, por outro ver os prospectos do elenco ganharem minutos e jogarem competitivamente deu esperanças para o futuro da franquia. Assim, foi possível tirar valiosas lições para os próximos passos do alvinegro, tanto no Draft quanto no mercado de agentes livres. Duas delas saltam aos olhos: tamanho não necessariamente é um problema como parecia, mas a condução de bola não está tão resolvida quanto já aparentou.

Walker foi o único que apresentou visão de quadra melhorada (Reprodução/nba.com/spurs)

Entre os sete jovens do Spurs que ganharam minutos com consistência na bolha, cinco deles têm altura que sugere que atuem entre as posições 1 e 2. São eles: Dejounte Murray (239 minutos na bolha e 1,93m de altura), Lonnie Walker (221 minutos na bolha e 1,96m de altura), Derrick White (209 minutos na bolha e 1,93m de altura), Keldon Johnson (208 minutos na bolha e 1,96m de altura) e Quinndary Weatherspoon (63 minutos na bolha e 1,91m de altura). Os outros dois têm combinação de tamanho, agilidade e fundamentos que os deixa restritos à posição 5: Jakob Poeltl (206 minutos na bolha e 2,16m de altura) e Drew Eubanks (142 minutos na bolha e 2,06m de altura).

Assim, desde a retomada da temporada, o Spurs usou só dois jogadores com tamanho típico de um ala, posição cada vez mais importante na NBA moderna. Trata-se dos veteranos DeMar DeRozan, que com 1,98m teria tamanho para flutuar entre as posições 2 e 3, e Rudy Gay, que com 2,03m de altura teria tamanho para flutuar entre as posições 3 e 4.

Mas foi comum para o Spurs usar três de seus prospectos ao mesmo tempo, ou dois deles ao lado de Patty Mills (1,85m de altura) ou Marco Belinelli (1,96m de altura), na bolha de Orlando. Assim, DeRozan passou a jogar minutos na posição 4, começando o jogo como titular ao lado de Murray, White, Walker e Poeltl.

Mesmo com formações de perímetro muito mais baixas do que manda o manual da NBA moderna, o Spurs jogou seu basquete mais competitivo na temporada. Como exemplos, venceu o Sacramento Kings, o Memphis Grizzlies e o New Orleans Pelicans, que iniciaram com quatro jogadores tão ou mais altos que DeRozan, o Utah Jazz, que escalou três jogadores mais altos que o camisa #10 do alvinegro como titulares, e o Houston Rockets, que começou com dois jogadores maiores que o astro do time de San Antonio.

Claro que altura sempre será bem vinda no basquete. Na recente derrota para o Denver Nuggets, por exemplo, o Spurs tomou 30 pontos de Michael Porter Jr,  que do alto de seus 2,08m jogou na posição três e simplesmente arremessou por cima de seus marcadores. Mas esse é um problema que a maioria das equipes enfrenta. É difícil achar jogadores que combinem o tamanho e a agilidade necessária para conter pontuadores versáteis do tipo.

Uma combinação de fatores faz com que o caso do ala do Nuggets possa ser considerado exceção. Murray, White, Walker, Johnson e Weatherspoon não são exatamente baixos, e todos têm bons fundamentos defensivos. Além disso, a combinação de comissões técnicas cada vez mais inteligentes na NBA moderna e a evolução do preparo físico, que faz com que jogadores consigam dobrar a marcação e se recuperar para contestar um possível arremessador livre o mais rapidamente possível, faz com que seja cada vez mais difícil explorar um marcador baixo perto da cesta.

Spurs precisa de organizadores mais confiáveis

Quem olha as escalações do Spurs na bolha, com cinco prospectos das posições 1 e 2 ganhando minutos ao lado de DeRozan, pode imaginar que o time teve a movimentação de bola como ponte forte em Orlando. Mas a realidade é bem diferente. A equipe teve o ataque estagnado em várias oportunidades e se viu dependente do camisa #10 em momentos decisivos. O problema ficou ainda mais evidente na vitória sobre o Pelicans, em que o alvinegro viu uma vantagem de vinte pontos evaporar após White sair machucado.

É difícil usar estatísticas para medir o QI de basquete de um jogador, uma qualidade que costuma-se chamar de “intangível”. Mas um jeito de ajudar a percebê-lo é a relação entre assistências e turnovers de um determinado atleta. E os números dos prospectos do Spurs eram razoáveis antes da bolha.

Mas desde a retomada da temporada, quando os prospectos passaram a jogar mais com a bola nas mãos, Walker foi o único que progrediu na estatística, o que mostra que os demais apresentavam desempenho melhor quando atuavam cercados de veteranos – especialmente DeMar DeRozan e LaMarcus Aldrige, que desfalcou o Spurs na bolha de Orlando.

Claro que as coisas não são preto no branco para jovens prospectos que estão nessa altura na carreira, e muita coisa boa foi mostrada. Walker bateu seu recorde pessoal ao distribuir seis assistências na recente vitória sobre o Pelicans, já na bolha, e arrancou elogios de Gregg Popovich. Já Johnson, apesar de não de criar muito para os outros, mostrou facilidade para cavar faltas em infiltrações e chegar à linha dos lances livres com consistência.

Mas os números mostram que o Spurs pode ter muitos problemas caso DeRozan opte por sair de seu contrato e virar agente livre. Além de ser o mais alto jogador de perímetro do elenco, o ala-armador é o mais capaz comandante de ataque que o time tem hoje. O camisa #10 terminou a temporada com 380 assistências e 164 turnovers, o que significa 2,32 passes para cesta a cada desperdício de posse.

Spurs pode atacar carências no Draft. E a agência livre?

Mesmo caso DeRozan decida cumprir seu último ano de contrato com o Spurs, é possível concluir que o ideal seria a franquia achar jogadores que possam defender adversários com tamanho de ala e que possam ajudar a organizar o ataque do time. Uma combinação bem específica, o que pode tornar a busca por reforços ingrata.

O primeiro passo para isso seria cumprir um bom papel no Draft. O scout brasileiro Rafael Uehara colocou, em seu Draft Board, o papel que espera que cada prospecto cumpra dos dois lados da quadra na NBA. Ele lista, por exemplo, Tyrese Haliburton como um condutor de bola que pode ajudar em rotações defensivas.

Armador de 20 anos de idade 1,96m de altura, Haliburton é um jogador de muito QI de basquete e altruísmo, o que o faz parecer um fit natural para o Spurs. Como tem bom aproveitamento nos arremessos, mas abre mão de bolas fáceis para assistir seus companheiros com frequência, é adorado por franquias que valorizam os números, mas levanta preocupação em quem prefere observar os prospectos mais de perto. De qualquer jeito, funcionaria bem ao lado de um condutor de bola como DeRozan, já que tem altura e fundamentos bons o bastante para marcar jogadores da posição dois, por exemplo. Na temporada, sua segunda no basquete universitário americano, apresentou médias de 15,2 pontos, 6,5 assistências, 5,9 rebotes e 2,5 roubadas de bola em 36,7 minutos por exibição por Iowa State, convertendo 50,4% de seus arremessos de quadra, 41,9% de seus tiros de três e 82,2% de seus lances livres. Pode estar ao alcance da franquia texana na primeira rodada.

Para a segunda, uma opção que Uehara coloca com perfil parecido seria Abdoulaye N’Doye. Armador francês de 22 anos de idade e 1,98m de altura, disputou 26 partidas pelo Cholet Basket na última temporada, apresentando médias de 10,2 pontos (52,2% FG, 42,9% 3 PT, 75% FT), 4,3 rebotes e 3,9 assistências em 30,8 minutos por exibição.

Na agência livre, as coisas ficam um pouco mais complicadas. Nomes como Brandon Ingram (2,01m de altura, 259 assistências e 189 turnovers na temporada) e Bogdan Bogdanovic (1,98m de altura, 207 assistências e 102 turnovers na temporada) são restritos, o que significa que Pelicans e Kings podem igualar as propostas feitas por eles. Assim, é difícil imaginar um cenário em que a franquia texana consiga roubar um dos dois.

Assim, o Spurs precisará ser criativo para atacar suas carências, especialmente se tiver que se virar sem DeRozan.

A falta que LaMarcus Aldridge fará ao Spurs

Quando o San Antonio Spurs retomar a temporada com a improvável missão de arrancar rumo aos playoffs e não ficar fora da pós-temporada pela primeira vez desde o início da carreira profissional de Tim Duncan, um desfalque deve ser sentido pela equipe dentro de quadra. Em recuperação de cirurgia no ombro direito, LaMarcus Aldridge está fora do campeonato e provavelmente fará muita falta.

LaMarcus Aldridge está fora da temporada (Reprodução/lancelivre.pt)

A temporada de Aldridge é a pior dos últimos três anos em pontos por jogo (18,9), rebotes por jogo (7,4) e no aproveitamento de quadra (49,3%). Porém, em um elenco que tem no tamanho e no arremesso seus dois mais evidentes defeitos, o camisa #12 deve ser um desfalque muito mais sentido do que a queda em sua produção ofensiva supõe a princípio.

Com 2,11m de altura, Aldridge é o segundo jogador mais alto do elenco, atrás apenas de Jakob Poeltl, que tem 2,16m. Entre os jogadores que regularmente fazem parte da rotação do Spurs, os dois foram os que mais defenderam arremessos realizados na zona restrita na temporada e os dois que mais limitaram os adversários. O americano contestou 313 bolas do tipo, segurando os oponentes a aproveitamento de 57,2%, enquanto o austríaco contestou 299 bolas do tipo, segurando os oponentes a aproveitamento de 49,2%.

Como base de comparação, Rudy Gay defendeu 176 arremessos do tipo, segurando os adversários a aproveitamento de 58,5%, e Trey Lyles defendeu 187 arremessos do tipo, segurando os adversários a 62% de aproveitamento. Números que mostram o impacto que a ausência de Aldridge causará na defesa interior do Spurs.

Do outro lado da quadra, Aldridge tentou 15 arremessos por jogo ao longo da temporada, ficando atrás apenas de DeMar DeRozan, com 15,7, no elenco. Dejounte Murray, com 9,3, completa o pódio. É possível imaginar que parte da queda de produção do ala-pivô se dê devido ao crescimento do armador, principalmente pelo fato que o trio faz parte do quinteto titular e tem nas bolas de média distância sua principal arma.

Se a temporada de Aldridge é a pior das últimas três em pontos por jogo, rebotes por jogo e aproveitamento de quadra, por outro lado é a melhor em assistências por partida (2,4), tocos por partida (1,6), roubadas de bola por partida (0,7) e porcentagem de conversão nas bolas de três pontos (38,9%). Também é a que o ala-pivô menos desperdiçou a bola, com 1,4 turnovers por jogo. Números que mostram um jogador trabalhando mais para o time enquanto divide a quadra com um talentoso jovem em ascensão.

Os arremessos de longa distância, especialmente, mostram essa nova faceta de Aldridge e o quanto ele pode fazer falta. Do trio que concentra as ações ofensivas do Spurs, ele é quem mais tenta bolas do tipo: três por partida, contra 1,6 de Murray e 0,5 de DeRozan. É também o que tem o melhor aproveitamento: 38,9%, contra 37,8% de Murray e 26,7% de DeRozan.

Como base de comparação um pouco mais avançada, 20% dos arremessos que Aldridge deu na temporada foram bolas de três pontos. Murray arremessou somente 17,2% de suas tentativas de trás da linha do perímetro, e DeRozan apenas 3,2%.

Os 38,9% de aproveitamento que Aldridge registrou nos 157 arremessos de três pontos que deu na temporada provavelmente significam que ele é o espaçador de quadra mais eficiente do elenco do Spurs. O aproveitamento dos especialistas é pior: Bryn Forbes tentou 381 bolas do tipo e converteu 38,8%, Patty Mills tentou 389 bolas do tipo e converteu 38%, e Marco Belinelli tentou 155 bolas do tipo e converteu 36,8%.

Os três únicos jogadores do elenco do Spurs com aproveitamento melhor do que o de Aldridge na temporada arremessaram muito menos. Lonnie Walker tentou 71 bolas do tipo e converteu 40,8%, Keldon Johnson tentou cinco bolas do tipo e converteu 40%, e Drew Eubanks acertou a única bola do tipo que converteu.

Os números ficam ainda mais impressionantes quando percebemos que os arremessos de três pontos são uma arma recente do arsenal de Aldridge. Nos 81 jogos que fez na temporada 2018/2019, o camisa #12 tentou 42 bolas do tipo. Entre outubro e dezembro, fez 30 jogos e tentou 60 bolas do tipo. Entre janeiro e março, fez 23 jogos e tentou 97 bolas do tipo.

A combinação de defesa interior e perícia nas bolas de três pontos faz com que Aldridge seja muito difícil de substituir. A princípio, a solução mais obvia parece ser aumentar a minutagem de Poeltl, Lyles e Gay. O primeiro é o melhor protetor de aro do elenco, e os dois últimos podem ajudar a espaçar a quadra com arremessos do perímetro.

Gregg Popovich também tem dado suas chances a Drew Eubanks ao longo da temporada. Aos 23 anos de idade, o pivô, que está em sua segunda temporada com o Spurs, fez 14 jogos em 2019/2020, três deles como titular, e sustentou médias de 3,6 pontos e 2,5 rebotes em 9,3 minutos por exibição. Agora, será que não é a vez de Chimezie Metu ganhar uma oportunidade?

Ala-pivô de 23 anos de idade e 2,06m de altura, Metu também está em sua segunda temporada no Spurs. Entre agosto e setembro do ano passado, defendeu as cores da Nigéria na Copa do Mundo de basquete e fez boa campanha, terminando a competição com médias de nove pontos e 5,6 rebotes em 18,8 minutos por partida. Ao longo dos cinco jogos que fez no torneio, tentou nove bolas de três e converteu 55,6% delas. 29% dos arremessos que tentou na competição foram de trás do perímetro.

Nesta temporada, Metu tem médias de 18 pontos e 8,9 rebotes em 29 minutos por exibição pelo Austin Spurs, time da G-League filiado à franquia de San Antonio. Por lá, arrisca 2,3 bolas de três pontos por partida e converte 37,9% delas. 16,5% dos arremessos que tenta são de trás do perímetro.

Além disso, a amostragem pequena de Eubanks e Metu na temporada da NBA mostra que, até aqui, o segundo é um melhor defensor de aro. O ala-pivô defendeu 16 arremessos na zona restrita e limitou os adversários a 56,3% de aproveitamento. Eubanks, por sua vez, defendeu 30 arremessos do tipo e limitou os adversários a 66,7% de aproveitamento.

Restam oito jogos para o fim da temporada regular, e é difícil imaginar Metu tendo sequência. A comissão técnica do Spurs costuma dar lugar cativo a quem tem histórico de serviços prestados, e Eubanks tem vantagem nesse sentido. Mas o ala-pivô parece ser quem tem o conjunto de características mais adequado para substituir Aldridge.