Arquivo diário: 16/07/2021

O Spurs em 2020/2021 – O elenco

Por Matheus Gonzaga, do Layups & Threes

Na segunda parte da análise da temporada 2020/2021 do San Antonio Spurs, é hora de abordar um por um os jogadores que fizeram parte da campanha do alvinegro. No primeiro texto, foi feita uma visão geral da equipe.

Jakob Poeltl pega rebote durante jogo do San Antonio Spurs contra o New York Knicks (Reprodução/nba.com/spurs)

Dejounte Murray

Com o declínio e o adeus de LaMarcus Aldridge, Dejounte Murray se solidificou como a segunda opção ofensiva do Spurs.Na verdade, quase uma primeira, já que teve mais toques por jogo e tempo de posse por partida do que DeMar DeRozan e não tentou uma quantidade tão inferior assim de arremessos.

Murray sem dúvida alguma evoluiu enquanto passador, tendo aumentado seu número de assistências e reduzido o número de turnovers, mesmo com maior responsabilidade. Aliás, uma das melhores formações do Spurs em saldo de pontos foi liderada por ele: a segunda unidade do começo da temporada, em que o armado dividiu a quadra com Patty Mills, Devin Vassell, Rudy Gay e Jakob Poeltl. Ele se mostrou capaz de conduzir um ataque de segunda unidade e de tomar boas decisões passando. Entretanto, seu jogo enquanto pontuador apresenta sérios problemas.

Murray teve TS% (medida que avalia a eficiência global de jogadores ao pontuar) de 50,9%, uma das piores marcas da liga dentre jogadores com volume alto. Isso se deve principalmente à sua seleção de arremessos: são quase cinco de meia distância por partida, uma das 20 maiores taxas da NBA. Destes, DJ acerta 45%, marca muito acima da média da liga na região, mas ainda ineficiente em termos globais. Outro aspecto relevante é sua dificuldade de chegar até a área restrita em infiltrações. São só 3,5 tentativas por jogo na mesma, número que não figura nem no top 100 da NBA. Quando chega, o armador até vai bem, convertendo 61,2% dos seus arremessos, aproveitamento muito eficiente.

O problema é que normalmente Murray é limitado para a parte mais longa do garrafão, de onde acerta apenas 41%, um dos 30 maiores volumes de tentativas da liga. Esses problemas em penetrar na defesa adversária fazem com que sua taxa de lances livres seja baixa: ele tem apenas 14% de free throw rate, enquanto a média da NBA é de 24%. O arremesso de três do armador é questionável, com aproveitamento de 31,7% em três tentativas por jogo, mas ao menos ele tem mostrado evolução em comparação a temporadas anteriores.

Além disso, tenho muitas dúvidas sobre seu papel ofensivo em um time de grande nível. Seu arremesso é muito fraco para que ele seja uma real ameaça sem a bola, e nessa situação ter seus talentos como playmaker, sua principal habilidade nesse lado da quadra, ficam subutilizados. Porém, ele também não funciona tão bem como peça central; sua dificuldade penetrando e a consequente dependência de arremessos difíceis o tornam muito ineficiente.

Defensivamente, Murray é um jogador de elite, sendo considerado pela métrica D-LEBRON o terceiro melhor armador da liga neste lado da quadra. Ele registrou bom desempenho ao marcar alguns jogadores de alto nível, como D’Angelo Russell (18 pontos em 18 tentativas – 1 PPA), Caris Levert (2 pontos em 8 tentativas, além de 5 TO), Shai Gilgeous-Alexander (7 pontos em 8 tentativas), De’Aaron Fox (8 pts em 8 TSA) e Bradley Beal (8 pts em 8 TSA). Por outro lado, ele foi engolido por Stephen Curry (30 pontos em 16 tentativas!!!), Lonzo Ball (20 pontos em 15) e Ja Morant (12 em 7 – não inclui o Play-In, em que DJ fez um bom trabalho).

Outro ponto a destacar de Murray é seu saldo global. O Spurs vence os minutos com DJ em quadra e perde os sem o mesmo – diferença de +1 para -7, impacto que se dá de forma quase igualmente distribuída em ambos os lados da quadra.  O armador atrapalha um pouco com sua ineficiência, mas ao ser capaz de organizar o jogo e defender muito bem, se torna um jogador importantíssimo para o time de San Antonio.

Murray é talentoso, um defensor de altíssimo nível e tem se tornado um tomador de decisões cada vez melhor. Porém, seu jogo ofensivo é cru (isso sendo bonzinho), dependente de tentativas ineficientes de meia distância e da floater range, muito por conta de sua dificuldade de chegar até o aro (que, vale dizer, pode estar relacionada com a falta de espaçamento da equipe). Se a intenção da franquia é mesmo que ele seja o armador titular no longo prazo e uma peça central do próximo grande time do Spurs, é importante que ele se desenvolva enquanto pontuador – seja infiltrando, para que possa se tornar um criador chave, ou arremessando do perímetro.

Derrick White

Os grandes times começam com grandes estrelas, mas sempre são necessárias algumas peças que são a cola – jogadores que não são os que mais arremessam, criam mais jogadas e fazem os maiores highlights, mas que com seu jogo versátil, inteligente, que não depende de ter sempre a bola e capaz de aproveitar de brechas abertas pelos principais nomes, são fundamentais para que uma equipe chegue a um patamar de elite. Para mim, Derrick White é um desses jogadores.

White me parece o tipo de jogador que melhora ao ter companheiros melhores, alguém que “escala” bem (usando o termo criado por Ben Taylor do Thinking Basketball). Talvez por isso seu impacto em um time mais limitado como o de San Antonio não seja tão visível. 

White sofreu muito com lesões, perdendo exatamente metade da temporada, e acabou por não ter um ano tão bom, não tendo tido em quadra nos períodos logo após retornar. Teve apenas 55% de TS%, um pouco abaixo da média, mas isso não conta a parte principal da história: o Spurs é muito melhor com ele em quadra, vencendo por 5 pontos cada 100 posses com o armador enquanto perde por 4 a cada 100 sem ele. De certo modo, White é o fiel da balança da equipe. Mas o que faz White impactar tanto o jogo, mesmo com suas médias apenas decentes de 15 pontos (em eficiência não tão boa), 3,5 assistências e três rebotes?

Primeiramente, temos o valor do arremesso. White espaça a quadra adequadamente. Ainda que seu aproveitamento seja na casa de 34,6% (abaixo da média, mas ainda ok), seu volume alto (quase sete tentativas por partida) faz com que defesas ao menos respeitem a bola de fora do Spurs, facilitando infiltrações e cortes para a cesta. 

O aproveitamento abaixo da média também está relacionado com a dificuldade dos arremessos. Se contarmos apenas bolas levemente contestadas ou não contestadas, o aproveitamento do armador é significativamente melhor: 37,3%. E há o fator de White ser forçado a arremessar um bom volume do drible de onde acerta terríveis 29,7). Trata-se de um bom arremessador de spot up, pegar e arremessar, mas não é idealmente um alteta que vai arremessar pull ups e criar bolas de 3 para si.

Outro valor é sua tomada de decisão: são apenas 1,3 desperdícios de bola por partida e poucas bolas forçadas na mid range. Por outro lado, assim como Murray, não trata-se de um jogador que chega com muita facilidade na área restrita, apesar de ser um finalizador sólido.

Defensivamente, White é considerado pelas métricas de impacto como um leve positivo, tendo como destaques sua grande capacidade de cavar faltas de ataque e coberturas de pick and roll acima da média. Em matchups específicos, ele se destacou ao marcar Brandon Ingram (cedendo apenas 7 pontos em 11 finalizações da estrela do Pelicans), Zach Lavine (4 pontos em 6 tentativas) e Paul George (9 pontos em 9 tentativas). Por outro lado, sofreu muito ao marcar Luka Doncic, Darius Garland e Collin Sexton. Curiosamente, o jogador do Spurs parece ter se saído melhor marcando alas que armadores, de modo geral, o que pode ser algo a se explorar futuramente

White é um bom arremessador se livre ou levemente contestado, toma boas decisões, espaça a quadra, finaliza de forma sólida e é um defensor acima da média. Porém, ele não é um jogador capaz de criar tanto para si mesmo,  infiltrar tanto ou ter a bola na mão a maior parte do jogo. Sua função ideal é ser um jogador primariamente sem a bola, que ataca quebras defensivas e arremessa quando livre, e que conduz o ataque em momentos específicos, além de suas contribuições defensivas. Esse é o tipo de jogador que faz contribuições silenciosas, mas cruciais. É uma peça que não é tão fácil de encontrar e que eleva muito o Spurs, mas que de certo modo está sendo desperdiçado, já que seria bem mais útil com mais talento ao redor. 

Patty Mills

Essa temporada marcou uma virada bem grande na percepção de Patty Mills por parte da torcida. O armador está na história da franquia, é o último remanescente do título de 2014 entre os jogadores e um líder gigantesco no vestiário. Em quadra, porém, sua temporada foi no geral considerada decepcionante.

Com as saídas de Bryn Forbes e Marco Belinelli, Mills se tornou o único legítimo especialista em arremesso da franquia e se preparou para ser mais agressivo na temporada, o que não se refletiu nos números. O australiano foi muito similar ao ano anterior, sofrendo uma leve queda no aproveitamento de 3 pontos ao converter 37,5% das suas tentativas.

Mills é um chutador. Se sua bola não cai, ele acrescenta pouco. Não é um grande infiltrador (só uma bola na área restrita por jogo), passador (por volta de 2,5 assistências) ou defensor (apesar de dedicado, não contribui muito nesse lado por limitações físicas). Seu ponto principal é um aproveitamento acima da média arremessando de 3em alto volume (6,3 tentativas por jogo).

O ponto negativo do veterano enquanto chutador é a falta de versatilidade. Do drible, Mills acerta apenas 31,5% de seus arremessos do perímetro, uma péssima marca. Por outro lado, acerta 41,3% das bolas de catch & shoot. O armador até consegue arremessar bem de situações como corridas através de corta-luzes (1,4 pontos por arremesso – ainda que em volume baixo), mas definitivamente não é capaz de criar o próprio chute.

Mills é um bom role player e acrescenta valor em um aspecto importante e carente no time de San Antonio, o arremesso do perímetro. Mas é apenas isso: um chutador situacional. Com o nível de deficiência de criação de tiros de 3 que o Spurs tem, seu apoio está longe de ser o bastante – o time precisa de jogadores capazes de gerar para si essas bolas. No aspecto fora de quadra, creio que seja interessante manter o astraliano, mas sua produção por si só não justifica uma renovação dado o contexto de reconstrução. Acho interessante renovar caso aceite ter apenas por volta de 12 minutos por partida, sendo um décimo homem e colaborando com seu apoio no vestiário.

Lonnie Walker IV

Inconsistência é a principal característica de Lonnie Walker, que varia entre jogos incríveis, como os contra o Houston Rockets em 2019/2020 ou o contra o Mileaukee Bucks na temporada passada, e grandes sequências de partidas esquecíveis. O ala-armador apresenta uma grande sequência de flashes de alto potencial, mas, se pegarmos em média, seu impacto está longe de ser bom. Segundo a métrica LEBRON, ele teve o décimo primeiro impacto mais negativo de toda a liga e o terceiro pior impacto defensivo.

O motivo para otimismo com relação a Lonnie Walker é seu arquétipo: um jogador com facilidade em chegar até o aro (2,6 tentativas na área restrita por jogo e 1,1 na parte longa do garrafão), capacidade de arremessar de 3 (quase 5 tentativas por jogo do perímetro) e gerar bolas do drible (3,1 tentativas de pull ups). A questão é que ele não é particularmente eficiente em nenhum dos quesitos. São 57% de aproveitamento na área restrita (abaixo da média, mas ainda com bastante valor por si só), 36% de três pontos (digno, mas não é uma especialidade), 27% em pull up threes e 41% em pull ups da meia distância (ambos péssimos). O Lonnie Walker ideal é um pontuador mega versátil e ameaçador, mas o “real” até aqui só demonstra potencial como infiltrador e arremessando bolas de 3 em catch & shoot, especialmente se livre, já que acerta 38,6% das suas tentativas nesta situação.

Essa dificuldade de ser eficiente em criação se revela no fato de ele ter sido um dos piores jogadores da liga em comandar pick and roll – são apenas 0,69 pontos por posse em cerca de 2,5 tentativas por partida. Por outro lado, “El Cuatro” é bom criando a partir de spot ups (seja nas bolas de três ou infiltrando a partir dessa situação). Walker está muito longe de ser ruim ofensivamente, mas parece mostrar mais potencial enquanto arremessador e atacando closeouts do que efetivamente criando.

Falar da defesa de Walker é complicado. Seu impacto é bem negativo, mas isso tem relação com a dificuldade dos matchups. Entre jogadores do Spurs, ele foi o que mais frequentemente marcou as primeiras opções adversárias e acabou não tendo sucesso. Ele marcou em volume relevante Brandon Ingram, Shai Gilgeous-Alexander, Jayson Tatum, Bradley Beal, Khris Middleton, Luka Doncic e Kawhi Leonard e sofreu contra boa parte dos mesmos. Assim, os números não querem dizer que ele seja por si só um defensor terrível, apenas que foi péssimo em seu dificílimo papel. De qualquer modo, seus sinais deste lado da quadra não são bons: a defesa do Spurs foi 8 pontos por 100 posses pior com ele em quadra.

O Lonnie Walker ideal tem potencial de estrela, mas ele não mostra nenhuma consistência ou eficiência associados a prospectos de alto nível. Seu potencial de criação de arremessos parece mais algo vindo da esperança de um futuro astro do que do que vemos em quadra, e sua defesa tem sinais muito negativos, ainda que parte disso possa estar relacionada a seu papel. Por outro lado, “El Cuatro” está longe de ser ruim – já é um bom chutador se livre e consegue chegar ao aro com facilidade, adicionando valor. Melhorando mais suas habilidades de finalização e evoluindo um pouco defensivamente, vejo alguém que poderia contribuir por muitos anos, mas com um papel menor, possivelmente um último titular ou um reserva importante. Talvez essa projeção seja pessimista – afinal, ele ainda é muito novo, e essa foi sua primeira temporada com minutos realmente regulares. Porém, seus dados não são tão animadores.

DeMar DeRozan

Já falamos bastante de DeMar DeRozan e sua condução do ataque do Spurs na parte mais geral do texto, mas ainda  há muito o que explorar sobre o ala, sobre quanto a equipe depende dele e sobre sua possível saída. 

DeRozan construiu, durante seu período em Toronto, uma reputação negativa dentre a comunidade de “analytics”. Afinal, seu papel era basicamente criar arremessos para si mesmo, e em quase todas as temporadas, com exceção de 2015/20’6, sua eficiência era abaixo da média da liga. Em outras palavras, ele não agregava tanto valor ao time na realidade. 

Em San Antonio, porém, ele mudou. Sua evolução enquanto playmaker e sua adaptação a um novo esquema fizeram muito bem a seu jogo. Nas duas últimas temporadas, seu aproveitamento foi acima da média da liga, e DeRozan se converteu em um legítimo passador de alto nível, se tornando a engrenagem principal de um ataque que é eficiente  quando o mesmo está em quadra. 

O primeiro aspecto disso é sua capacidade incrível de cuidar da bola: são 3,55 assistências a cada turnover, sexta maior marca da liga. Além disso, ele é um dos melhores jogadores de mano a mano da liga (1,2 pontos por posse em 3 tentativas por jogo), ótimo comandando pick and roll (1,02 pontos em média, marca melhor que a de 84% da liga, em 7,5 posses por partida) e com qualidade no poste baixo (em 1,6 post ups,  gerando 1,14 PPP). Além disso, o ala tem uma das 10 maiores taxas de faltas cavadas de toda a NBA.

Seu problema ofensivo é a dificuldade em ficar sem a bola. Sua falta de habilidade enquanto arremessador faz com que ele complique o time quando está sem a bola e se torne previsível ao recebê-la em situação de spot ups. Talvez isso seja parte da culpa na ineficiência de Murray, o outro criador, que consegue atacar o garrafão com maior frequência nos minutos sem a estrela da equipe. Mas no geral , isso não é um problema tão grande no contexto do Spurs – até porque quase ninguém consegue criar além dele.

O jogo de meia distância ainda é uma parte muito importante do arsenal do ala. São 5,4 tentativas por jogo e aproveitamento na casa dos 47% ,o que é EXTREMAMENTE eficiente para o volume e para a região, mas ainda assim, não leva a um ataque bom. De qualquer modo, trata-se de uma arma muito útil, especialmente para jogadas que quebram no fim dos 24 segundos. Mais impressionante ainda é o fato de DeRozan acertar 49% em pulls ups – isto é, ele é ainda mais efetivo ao arremessar do drible. 

Não há dúvidas sobre o talento ofensivo do camisa #10, mas há um questionamento válido: quanto valor ele dá ao todo para a equipe considerando sua péssima defesa. O modelo D-RAPTOR do five-thirty-eight coloca o ala como o décimo primeiro pior defensor da liga, enquanto o D-LEBRON é um pouco menos negativo, mas ainda o coloca entre os 70 piores da NBA deste lado da quadra. Boa parte da questão gira no fato de a defesa do Spurs ser extremamente superior sem seu astro em quadra: são 10 pontos por 100 posses de diferença, comparável à diferença de uma péssima defesa para uma das de elite.

Claro que há um ruído, especialmente relacionado ao fato de boa parte dos minutos sem DeRozan serem os em que segundas unidades se enfrentam. Porém, essa diferença é muito grande para ser apenas “azar”. O ala é sim um negativo muito grande defensivo, alguém difícil de esconder e que prejudica bastante o Spurs deste lado da quadra. Claro que no agregado seu valor é bem positivo, mas ele é reduzido por essa deficiência.

Pensando no futuro, talvez valha a pena deixar o astro sair na agência livre por diversos motivos: o primeiro é dar papel maior de criador aos jovens, de modo a descobrir se algum deles se projeta enquanto iniciador de alto nível. Murray, por exemplo tem papel maior nos minutos sem DeRozan. Mesmo se o experimento der errado, teremos descoberto que essa é uma grande deficiência a suprir futuramente.

Um segundo ponto é favorecer a identidade defensiva centrada em Dejounte Murray e Jakob Poeltl, que apresenta alto potencial e veio surgindo na última temporada. Imagino que na ausência de DeRozan o alvinegro consiga estar no top 10 da liga no quesito por múltiplos anos. Um terceiro ponto é a “linha do tempo” da equipe: o astro não se encaixa e muito provavelmente não estará presente no “próximo grande time do Spurs”. Claro que é necessária a presença de veteranos na equipe, mas não um que ganhe o maior salário e vá ter o maior número de toques.

Por último, mas não menos importante: o ala está em um período em que normalmente começa a haver decadência física. Na temporada, sua eficiência finalizando no aro caiu bastante. Claro que os talentos de playmaker devem estender a carreira de DeRozan, bem como sua habilidade de cavar faltas, mas a tendência é que ele passe a produzir menos devido à sua queda de produção como finalizador e à redução da mobilidade lateral, que tem o tornado cada vez pior defensivamente.

DeRozan foi o melhor jogador do time na temporada, se reinventou e foi crucial nos últimos anos, merecendo aplausos e gratidão da torcida, mas acho que é hora de dizer adeus.

Keldon Johnson

Keldon Johnson é, para mim, o maior destaque da temporada do Spurs se comparado às expectativas. Ele também é, em minha opinião, a peça mais importante para o futuro da franquia.

Johnson não é um certeiro “futuro All-Star“, muito menos tem as marcas de um futuro franchise player. Porém, trata-se de um jogador com talentos bem interessantes e que podem ser muito potencializados com um refinamento técnico.

O jogador tem apenas 21 anos, e essa foi sua primeira temporada de fato na liga, já que ele mal jogou em seu ano de calouro. O simples fato de ter sido titular no time de Gregg Popovich por toda a temporada e de ter alta minutagem já é um grande feito. Além disso, diversos especialistas o colocam entre os 30 melhores prospectos da liga hoje e o único do Spurs nessa faixa. Mas o que torna o ala em um talento “especial”?

Sua principal virtude é a capacidade de chegar até a cesta: de suas 7 finalizações no garrafão por partida, quase 5 são na área restrita, o que revela uma facilidade gigantesca em penetrar na área pintada. Lá, o aproveitamento de Johnson é bem mediano, 59,7%, mas chegar em alto volume em uma região de tamanha eficiência é por si só extremamente valioso. Essa agressividade também faz com que ele obtenha uma taxa alta de lances livres batidos (28% de free throw rate, consideravelmente acima da média da liga). No lado negativo, vale dizer que seu floater não é uma ameaça (36% na parte longa no garrafão).

Enquanto arremessador, Johnson é abaixo da média, mas ainda acrescenta certo valor, especialmente no contexto do Spurs. Acertar 33% em apenas 2,7 tentativas por partida está longe de ser bom, mas acrescenta algum valor ao criar uma ameaça minimamente credível no perímetro, o que facilita um pouco suas infiltrações. Porém, vale ressaltar que um volume maior, se possível acompanhado de um maior aproveitamento, tornaria essa ameaça bem maior. Além disso, há motivos para ser otimista com o arremesso – na G-League em 2019/2020, o  jovem chutou 24% em bolas de 3, 9% abaixo dos 33% atuais, o que mostra uma possível curva ascendente.

Pensando em alçar “voos maiores” seria importante que Johnson desenvolvesse movimentos de infiltração que o tornasse mais eficiente, e especialmente um jogo de pull up, que criaria uma maneira de punir defesas que fechem o garrafão quando ele estiver com a bola. Hoje, esse jogo de arremessos do drible não existe: são apenas 1,2 tentativas a cada partida e aproveitamento bem ruim de 40%. 

Sem a capacidade de pull ups, o “Mustang” acaba sendo mais limitado a uma situação de “spot up“, na qual recebe a bola e pode ou arremessar (parado) ou infiltrar, não sendo um jogador muito capaz em isolações ou comandando pick and rolls – algo que seria crucial para que ele chegue a um nível de estrela.

Defensivamente, Johnson teve momentos positivos e negativos, tendo no saldo sido um defensor mediano segundo o D-LEBRON e um moderadamente abaixo da média segundo D-RAPTOR. Vale ressaltar que ele tipicamente marcou jogadores muito mais altos em vários jogos – usualmente, o melhor jogador entre alas adversários, independente da altura. Contra atletas como Jaylen Brown, Zion Williamson, Pascal Siakam, Jimmy Butler e Jayson Tatum, ele teve saldo bem positivo, ainda que boa parte dos mesmos seja bem mais alta do que o segundanista. Por outro lado, ao marcar jogadores com diferença de altura ainda maior, como Anthony Davis, Giannis Antetokounmmpo e Kristaps Porzingis, ele foi destroçado. No geral, não acho que Johnson deva marcar mais guards ou necessariamente jogadores de sua altura, mas ele definitivamente não deve marcar jogadores de porte da posição 5. Trata-se para mim de um clássico wing defender já interessante nessa função, com potencial de se tornar muito bom.

Keldon Johnson já é um jogador interessante e de bom impacto, e considerando sua inexperiência e juventude há motivos para ser mais otimista ainda. Se ele adicionar movimentos mais avançados à sua capacidade de chegar ao aro, trabalhar mais em seu arremesso e ser mais agressivo quanto ao mesmo e desenvolver um pull up respeitável, não vejo porque não seria capaz de se tornar uma estrela. Claro que isso está longe de ser uma certeza e não é nem o mais provável, mas o acho o único jogador do nosso núcleo jovem que apresenta essa possibilidade como algo realmente plausível.

Devin Vassell

Devin Vassell nem esteve entre os 20 novatos com mais minutos da temporada, mas para os padrões Spurs ele foi muito utilizado, tendo ficado na rotação a maior parte da temporada e obtido a maior minutagem de um calouros da franquia desde Kawhi Leonard. No desempenho, foi uma temporada de altos e baixos, mas vale mencionar sua performance positiva na defesa, algo relativamente raro para um rookie. Vassell teve uma das 50 maiores taxas de roubos de bola da liga e foi parte relevante do melhor quinteto defensivo do time de San Antonio, que também teve Dejounte Murray, Patty Mills, Rudy Gay e Jakob Poeltl). Também foi um defensor individualmente acima da média ao ceder 0,87 pontos por posse marcando pick and roll. Por outro lado, sofreu ao marcar jogadores em situação de spot up, permitindo 1,26 pontos por arremesso). O ala ainda não é um especialista defensivo, mas tem demonstrado um potencial bem interessante nesse lado da quadra.

Ofensivamente, porém, seu jogo é extremamente cru: a maioria absoluta de suas tentativas de três pontos vem de catch & shoot e livre, e mesmo assim seu aproveitamento foi de apenas 35%, marca abaixo da média da liga como um todo. De qualquer modo, trata-se de um número ao menos respeitável, e parece haver grande margem para melhora, uma vez que seu retrospecto na universidade e seu aproveitamento de lances livres são muito bons. É crucial que haja essa evolução, não só no aproveitamento em bolas livres, mas também na capacidade de arremessar em movimento ou contestado, o que permitiria um volume maior.

Sua criação de arremessos é ruim para dizer o mínimo: Vassell tem dificuldade bem grande em chegar até o aro, muitas vezes recorrendo à meia distância (1,1 tentativas por jogo na mid range e 0,7 na floater range contra 0,7 na área restrita) e acertando apenas 34% de seus arremessos da região. Caso queira ser mais que um jogador complementar nesse lado da quadra, é importante que desenvolva infiltrações mais efetivas ou um jogo de pull up muito melhor, coisas que acho altamente improváveis.

No geral, Vassell ainda parece o jogador que se esperava no draft. Tem potencial alto defensivo, capacidade de arremessar do catch & shoot em desenvolvimento e o restante do jogo bem limitado. Vejo ele como um reserva relevante na próxima temporada e um futuro 3 and D titular, por considerar que sua defesa e capacidade de chute de 3 muito provavelmente irão evoluir bastante nos próximos anos.

Rudy Gay

Com as saídas de Bryn Forbes e Marco Bellinelli, Rudy Gay foi alçado ao posto de maior alvo de críticas da torcida do Spurs, que foram absolutamente justificadas: o veterano teve TS% de 53%, bem abaixo da média da liga, monopolizou muito a bola e insistiu em arremessos de baixa eficiência: suas 2,4 tentativas de meia distância por jogo com 39,5% de conversão são injustificáveis, bem como sua insistência em toques no poste e em arremessos contestados na mesma região. São 1.9 bolas de mid range tentadas com marcação em sua cara por partida, marca que figura no top 50 da NBA, e conversão de apenas 36%, um aproveitamento obviamente ridículo.

Por outro lado, Gay não é um jogador inútil, longe disso: ele acertou 38% em bolas de 3 em volume relativamente alto para os padrões do Spurs (4,4 tentativas por partida), se saindo bem até em bolas com certa contestação (37% em bolas levemente marcadas). Também acertou 58% em bolas da área restrita (aproveitamento na média). Essa descrição revela um excelente ala de spot up, que recebe a bola após outra ação para arremessar de três ou atacar a cesta. O problema é que ele é utilizado como um criador de arremessos no poste e na meia distância.

O veterano se mostrou um defensor sólido (melhor que 75% da NBA) no mano a mano e no pick and roll e mediano em situações de spot up. No geral, o Spurs foi melhor com o ala em quadra, mas justamente no lado defensivo – o que não é mérito apenas do mesmo, mas também não é coincidência – a diferença é da ordem de 11 pontos por 100 posses. Ofensivamente, o Spurs foi um ponto pior por 100 posses com o jogador em quadra.

Gay poderia ser um excelente 3 and D que ainda infiltra por vezes, mas seu perfil de arremessos focado em bolas de meia distância, por muitas vezes contestadas, dificulta que seu impacto seja bom. Caso aceite seu papel mais sem a bola, pode ser um excelente quinto titular para um time que lute na parte de cima da tabela, ou uma peça importante para o Spurs caso a franquia queira manter uma presença veterana.

Jakob Poeltl

Para mim, Jakob Poeltl é o jogador mais subestimado do Spurs e talvez um dos mais da NBA. Seus números brutos modestos sua falta de um arsenal ofensivo robusto e seu grande atleticismo fazem com que ele pareça um titular abaixo da média. Porém, o austríaco é um dos três jogadores mais importantes da equipe e uma presença extremamente valiosa.

Começando por seu lado mais fraco, o ataque: Poeltl não possui nenhum tipo de arremesso de meia distância ou três pontos, é péssimo no poste (0,73 pontos por arremesso) e teve um sofrível aproveitamento de 51% na linha de lance livre. Porém, não é totalmente negativo nessa fase: ele é competente (ainda que não bom) finalizando em pick and rolls (1,11 pontos por arremesso, mediano para a jogada), ótimo em fazer corta-luzes (quarto na liga em screen assists), um finalizador no aro levemente acima da média para um pivô (69% de aproveitamento na área restrita) em um volume razoável (quatro tentativas por jogo), com um toque acima da média em floaters (47%, podendo ser uma arma útil pontualmente) e excelente em cortes para a cesta (um dos 15 jogadores da liga que mais os executa e gera 1,33 pontos por tentativa). Sim, o europeu não é um grande jogador ofensivo e é abaixo da média para um titular de NBA, mas está longe de ser incompetente, fazendo bem o trabalho sujo

Na defesa, porém, Poeltl é um jogador de elite, tendo sido o quarto melhor defensor da liga em D-LEBRON e o terceiro em D-RAPTOR. A maior parte de seu valor se dá na proteção de aro, no qual é um dos líderes da liga em contestações por jogo (o que tem seu valor inerente, já que arremessos não contestados no aro geram cestas quase sempre) e cede aproveitamento de apenas 50% aos adversários, terceira melhor marca da liga dentre jogadores de volume comparável.

Poeltl é um dos melhores protetores de aro do planeta, estando num patamar quase comparável ao de Rudy Gobert nesse fundamento (os números dos dois são bem parecidos nesse aspecto, aliás). Por outro lado, é ruim defendendo no poste (melhor que 42% da NBA) e em pick and rolls (melhor que 34% da NBA), indicativos de uma possível queda de valor em playoffs. Quando forçado a marcar o perímetro em mano a mano, ele é abaixo da média, mas ainda decente para um pivô (ceder 0,94 pontos por arremesso em mismatches é algo positivo: em caso de ser necessária uma troca no fim de uma posse, ele é um defensor honesto).

O austríaco não é um grande defensor posicional, mas é um monstro na cobertura defensiva, um talento de elite que compensa extremamente bem os pontos fracos e o torna um dos melhores da liga nesse lado da quadra. Uma evidência disso é que considerando apenas os minutos com Poeltl em quadra o Spurs teve DRTG de 111,1, equivalente à quinta melhor defesa da temporada regular. Também é evidente uma mudança de padrão nas duas unidades da equipe na presença do europeu. Formações de segunda unidade (aqui definidas como as na presença de Rudy Gay e Patty Mills) têm saldo de +13 com o pivô em quadra, enquanto  o número é -5.4 em sua ausência. No time titular (considerando aqui Dejounte Murray, DeMar DeRozan e Keldon Johnson presentes), o saldo é de +1 com Poeltl, contra -11 sem ele. Em ambos os casos, a maioria do efeito se dá no lado defensivo.

É fato que o alvinegro é muito melhor com o pivô em quadra e que seu impacto protegendo o aro transforma completamente a equipe: quando ele está jogando com os reserva, eles têm bom desempenho, e quando ele está jogando com os titulares, esse grupo tem saldo positivo. Em sua ausência, as duas unidades sofrem.

Poeltl é um pivô titular acima da média na temporada regular (há dúvidas sobre seu possível rendimento em eventuais playoffs) e hoje é um dos jogadores de maior impacto na equipe – independente da formação, o Spurs rende muito melhor com seu protetor de aro e passa de uma defesa ruim para uma das melhores da liga quando o camisa #25 está em ação. Ofensivamente, ele faz o básico de forma competente, não comprometendo, ainda que não agregue muito valor e seja abaixo da média.

Drew Eubanks

Uma das principais consequências da saída de LaMarcus Aldridge foi a entrada de Drew Eubanks na rotação. Trata-se de um jogador que ano passado era two-way, e esperava-se que ele fosse praticamente apenas um preenchedor de elenco. O pivô não foi vergonhoso enquanto reserva e teve seus momentos, mas, no geral, não me parece ser idealmente um jogador de rotação na NBA.

Ofensivamente, Eubanks é completamente cru. Ele é um finalizador digno no aro, convertendo 64,6% das tentativas, mas abaixo da média para um pivô. Além disso, não tem capacidade alguma na floater range (36% de aproveitamento) e muito menos em arremessos exteriores. No pick and roll, ele é um jogador abaixo da média (1,06 pontos por posse, algo que pelo menos é útil, mas bem ruim para a jogada). Por outro lado, o jogador tem suas virtudes cortando para a cesta, estando no top 50 da liga em frequência de  jogadas nessa modalidade e entre os 20% melhores em eficiência. No poste, ele mostrou sinais promissores ao gerar 1,04 pontos por tentativa, marca boa para a jogada, mas nada demais, e com amostragem muito curta. Não acho que dar mais a bola para Eubanks trabalhar de costas vá resolver algum problema do alvinegro.

Na defesa, o pivô é um ótimo protetor de aro para um reserva: 52% de FG% cedido no caro, o que lhe dá a décima sexta melhor marca da liga no quesito entre jogadores com no mínimo 200 contestações. Além disso, ele foi um ótimo defensor de poste (entre os melhores 15% da liga), mas péssimo marcando pick and roll (entre os piores 10%). Entretanto, as duas amostragens são muito curtas. No geral, ele é bom o suficiente defensivamente para um pivô reserva.

Curiosamente, a defesa da segunda unidade do Spurs performa bem com Eubanks no lugar de Poeltl. Apesar de cair bastante, indo de 100 para 109 pontos cedidos por 100 posses, ainda é um ótimo número defensivo para 2021. Porém, o ataque do banco se tornou péssimo desde a sua entrada (ORTG de 113 com Poeltl na seginda, unidade contra 102 com Eubanks. Há outros fatores em conta, mas a queda ofensiva com a saída do europeu é gigantesca demais para ser pura coincidência. Como o austríaco não é realmente bom no ataque, isso diz muito sobre a falta de qualidade do reserva deste lado de quadra.

Eubanks é um jogador de NBA, e vale mantê-lo em seu contrato mínimo, mas seu papel ideal é de um terceiro pivô, que consegue entrar para proteger a cesta quando necessário e dar minutos ao menos dignos em caso de lesões. Ele estar na rotação não é algo absurdamente ruim, mas não é o ideal, já que seu jogo ofensivo é extremamente limitado e danoso ao time. Eu buscaria na offseason um outro pivô para ser a segunda opção da equipe.