Arquivo diário: 14/11/2020

Spurs segundo os números: Os bigs

Por Matheus Gonzaga, do Layups & Threes

Parte 1: Os armadores
Parte 2: Os alas

Rudy Gay

Rudy Gay (Reprodução/nba.com)

Rudy Gay tem uma carreira peculiar: ele foi de prospecto promissor a jogador de estatísticas vazias antes de virar uma peça produtiva na rotação do San Antonio Spurs em 2018/2019. Entretanto, o combo forward sofreu um declínio na última campanha, tendo reduzido bastante sua eficiência. Vamos aos números: 

Gay jogou 67 jogos (cinco como titular) e teve médias de 10,8 pontos, 5,4 rebotes e 1,7 assistências em 22 minutos por partida. Seus aproveitamentos foram de 44,6% de quadra (6% pior que a temporada anterior) e 33,6% do perímetro (7% pior que em 2018/2019). 

Acho que o principal número de Gay é a má eficiência arremessando de três pontos. Para um jogador de perímetro complementar como ele, saber chutar de longa distância é crucial. O aspecto mais curioso sobre o aproveitamento do ala é que ele foi pior em tentativas de catch and shoot do que nas do drible. Ele acertou 30,8% de suas tentativas de catch and shoot (que foram a absoluta maioria das tentativas), enquanto acertou metade de seus 30 pull ups. Trata-se de uma amostra pequena, e é bem óbvio que ele não iria acertar 50% de seus arremessos do drible em volume alto, mas isso indica que talvez ele seja melhor criando seu arremesso no perímetro. 

Em outras partes da quadra, trata-se de um jogador bem eficiente: Gay chuta 67,9% na área restrita (um ótimo número, mas seu volume é de apenas duas tentativas por jogo), sendo também um infiltrador ok (51,1%).

Gay chuta cerca de três bolas de meia distância por jogo com aproveitamento de 47,1%, número muito bom para essa área e digno em geral, especialmente considerando que o volume não é muito alto. A maior parte dessas bolas vem do drible e são criadas pelo próprio ala: 156 de seus arremessos de dois pontos foram pull ups, e ele converteu 47,3%.

Falando agora sobre jogadas específicas, Gay foi muito mal no um contra um (0.8 pontos por posse), mas foi excelente operando o pick and roll. Foram 1,15 pontos por posse, número incrível, entre os melhores da liga. Mas foram apenas 79 posses, então não é necessariamente um indicativo de suas capacidades, mas é um bom sinal. Além disso, o ala foi um roll man abaixo da média, mas decente (1,02 pontos por posse). Por fim, foi péssimo no post up (0,7 pontos por posse, mas só tendo uma posse por partida).

Do outro lado da quadra, Gay é um jogador decente. Foi um defensor bem próximo da média da liga em um contra um (permitiu 0,88 pontos por posse), foi ótimo marcando ball handlers em pick and roll (0,5 pontos por posse cedidos, mas em baixo volume), péssimo marcando roll men (1,4 pontos por posse cedidos, entretanto com volume bem pequeno) e mediano fazendo closeouts (0,94 pontos por posse). Além disso, foi um ótimo defensor de posts (permitiu apenas 0,72 pontos por posse, mas em poucas marcadas).

Gay é uma boa peça complementar. É um defensor ok, consegue finalizar no aro, sabe infiltrar, sabe criar seu arremesso e tem um chute de meia distância decente. Por mais que não tenha tido boa eficiência do perímetro, ele não é ruim a ponto de ser ignorado e deixado livre pelas defesas adversárias. Pode ser um bom ball handler secundário vindo do banco e um jogador que, por mais que não crie para os companheiros de equipe, consegue tiros para si próprio e os converte bem, além de não prejudicar o time em nenhum outro ponto do jogo.

Trey Lyles

Trey Lyles (Reprodução/nba.com)

Trey Lyles foi uma contratação tardia do Spurs na última free agency, assinado para substituir Marcus Morris, que, após estar apalavrado com a franquia texana, desistiu de assinar e foi para o New York Knicks. Surpreendendo todo mundo, o canadense foi colocado no time titular logo em sua primeira exibição e manteve o posto em boa parte dos jogos em que atuou: foram 63 partidas em 2019/2020, 53 delas como titular. As médias por jogo do ala-pivô foram de 20 minutos, 6,4 pontos, 5,7 rebotes e 1,1 assistências, com aproveitamento de quadra de 44,6% de 38,7% do perímetro em cerca de três tentativas por compromisso.

O arremesso com certeza é um dos motivos que fizeram o jogador de 24 anos ser titular: seu aproveitamento de 38,7% é muito bom, especialmente para um big man, e isso permite um bom espaçamento de quadra para jogadores como DeMar DeRozan, que precisam dele para atacar a cesta com maior efetividade. Lyles é um especialista da zona morta, tendo tido 46% de aproveitamento no corner em 50 tentativas, mas ainda é capaz de converter em um nível ok fora dela. Seu aproveitamento foi de 35,6% em 118 tentativas no arco. Por outro lado, o ala-pivô não é um dos arremessadores mais dinâmicos da liga, tendo tentado apenas dez pull ups em toda a temporada, algo que limita seu jogo ofensivo e dificulta que ele seja mais que um role player.

Um outro ponto negativo do jogo do ala-pivô é sua incapacidade como roll man: Lyles tem apenas 0,78 pontos por posse na jogada, marca que pior que a de 87% da liga, e que também tem relação com o fato de o canadense não ser um bom finalizador no aro. Ele acertou 62% de seus arremessos na área restrita, marca bem mediana, mas que deixa a desejar bastante para um jogador de sua altura e posição.

Do outro lado da quadra, Lyles foi sólido, tendo sido um defensor mediano de mano a mano, o que é bom para sua posição, pelo simples fato de ele não ser um mismatch marcando o perímetro. Também foi um bom marcador de pick and roll, seja marcando ball handlers (cedeu 0,82 pontos por posse) ou roll men (melhor que três quartos da liga no quesito, tendo cedido 0,74 pontos por posse). O canadense deixou um pouco a desejar fazendo closeouts, mas nada demais: cedeu 1,03 pontos por arremesso na jogada, marca levemente abaixo da média da NBA.

Já em duas capacidades defensivas mais típicas de um big, ele deixou a desejar, tendo cedido 1,12 pontos por post up do adversário (número próximo ao percentil de 20%) e cedendo 63% de aproveitamento no aro para jogadores de outras equipes, um número que é mediano para jogadores em geral, mas deixa bastante a desejar para um jogadores da posição.

Entretanto, existe um aspecto típico de pivôs em que o canadense é bom: rebotes. Lyles teve uma das 30 maiores taxas de rebotes defensivos da NBA e  foi o terceiro jogador do Spurs com mais box outs na temporada, algo muito bom considerando sua minutagem relativamente baixa. Não é como se o jogador fosse um dos melhores da liga no fundamento, mas definitivamente ele é competente nele.

Lyles é um role player limitado, mas é certamente útil na rotação. Jogadores altos e que espaçam a quadra são valiosos na NBA moderna, e o canadense é capaz de fazer isso bem, o que já agrega valor ofensivo ao time, ainda que ele não contribua em outros aspectos nesse lado da quadra. Defensivamente, trata-se de um jogador que consegue marcar bem o pick and roll e não é um mismatch no perímetro, mas, por outro lado, é um defensor de aro e de post ruim. O canadense não é um grande jogador, mas com certeza não é ruim: apesar de diversas falhas, ele tem capacidades importantes para o sucesso de um time da liga em 2020.

LaMarcus Aldridge

LaMarcus Aldridge (Reprodução/nba.com)

Há um ano atrás, esse texto categorizaria LaMarcus Aldridge como um pivô bem tradicional, focado no jogo de costas para a cesta. Mas a história mudou um pouco: tendo incorporado recentemente o arremesso de três pontos em seu arsenal, o camisa #12 se tornou uma peça muito mais útil e versátil em 2019/2020. 

Começando pelas estatísticas básicas: Aldridge jogou 53 partidas na temporada, com médias por partida de 33 minutos, 18,9 pontos, 7,4 rebotes e 2,4 assistências, além de 1,6 tocos. O camisa 12 teve aproveitamento de quadra de 49,3% e 38,9% de eficiência do perímetro em três tentativas por jogo – com sobras a maior marca da carreira.

Apesar de seu jogo ter rumado cada vez mais para o perímetro, Aldridge ainda tem bastante arremessos de costas para a cesta: sua média de 9,7 posses por partida foi a segunda maior da liga, atrás apenas de Joel Embiid. E ele foi realmente eficiente. O camisa #12 do Spurs é uma exceção à regra da liga: considerando sua capacidade de cavar faltas na jogada, ele conseguiu ótimos 1,07 pontos por posse. Por outro lado, trata-se de um passador abaixo da média, tendo um percentual de assistências de costas para a cesta de apenas 6,7% (pior que cerca de 70% da NBA), algo que limita o potencial dos seus toques na região.

Mas a expansão do jogo de Aldridge para o perímetro é uma coisa que libera o potencial de seus companheiros. O espaçamento de quadra promovido por um big arremessador facilita muito infiltrações de colegas e desafoga o ataque. Além dessa utilidade indireta, o ala-pivô também contribui com seu bom aproveitamento nos chutes: 38,9% é uma marca muito boa, especialmente para um pivô, ainda mais considerando o fato de que o jogador do Spurs não arremessa só da zona morta. Na verdade, acontece oposto: 81% das tentativas do camisa #12 foram fora dela, e sua eficiência foi ligeiramente melhor nessas bolas (39,4%) do que em arremessos dos cantos da quadra (37,9%). 

É claro que Aldridge não é um mega criador de arremessos de três pontos (não seria nem justo esperar isso de um jogador de sua posição e altura). Praticamente todas as suas tentativas foram de catch and shoot, mas isso não diminui sua utilidade.

Por outro lado, a insistência nas bolas de meia distância é uma coisa que a diminui. Aldridge foi o segundo jogador de toda a NBA que mais tentou bolas na região e acertou 44,9%, marca que gera menos de 0,9 pontos por posse. Em minha visão, seria bem melhor se ele destinasse a maior parte possível dessas bolas para o perímetro, onde ele conseguiria ser mais eficiente. É claro que alguns deles estão associados ao jogo de costas, e indiretamente são produtivos para o astro por, enquanto ameaças, possibilitarem muitos lances livres e rotas para o aro, mas os originários de spot ups e pick and pops poderiam facilmente ser levados para a linha de três pontos, de onde trariam mais valor para a equipe de San Antonio.

Finalizando no aro, Aldridge é muito competente, tendo acertado 69,2% de seus arremessos na área restrita, marca melhor que 80% da liga. Por outro lado, o ala-pivô teve dificuldades de chegar até lá – só finalizou na região 3,5 vezes em cada jogo.

Esses números nos trazem certamente a informação de que Aldridge é um jogador muito útil ofensivamente. Mas, no outro lado da quadra, a história é um pouco diferente. Não é que ele seja ruim para um protetor de aro em geral: ele cedeu 57,2% de aproveitamento para adversários protegendo o garrafão, marca melhor que mais de dois terços da liga. A questão é que, para um jogador da posição cinco, esse índice deixa a desejar, considerando que defender a cesta é a atribuição defensiva mais importante da mesma – e a que mais impacta no desempenho do time dentre todos os aspectos defensivos do basquete.

Mas creio que existe um outro número que conta ainda melhor essa história: a defesa do Spurs é 4.5 pontos por 100 posses melhor com Jakob Poeltl, seu reserva direto (esse sim um ótimo protetor de aro) do que com Aldridge. É claro que as escalações em que cada um atua influenciam e que o austríaco normalmente defende reservas adversários. Mas o maior responsável pelo rendimento defensivo tende a ser a proteção de aro, e nisso o camisa #12 deixa a desejar.

Por outro lado, o restante de seu desempenho defensivo foi ok. Aldridge defendeu bem as (não muitas) vezes que marcou bno mano a mano (cedeu aproximadamente 0,9 pontos por posse), soube fazer coberturas de pick and roll de forma adequada (cedeu um ponto por posse para roll men adversários, boa marca para a jogada) e foi um defensor razoável de post (0,92 pontos por posse permitidos), mas nada notável. 

Aldridge é um pontuador talentoso, seja no post (especialmente cavando faltas e usando a posição para chegar ao aro) ou arremessando no perímetro. Entretanto, o pivô não é um grande passador, apresenta alguns problemas de seleção de arremesso e certamente apresenta limitações defensivas, que são mais difíceis de cobrir por sua posição. De qualquer, modo trata-se de alguém muito talentoso e que pode ser útil para diversos times da liga fazendo cestas.

Jakob Poeltl

Jakob Poeltl (Reprodução/nba.com)

Talvez eu goste mais do jogo de Jakob Poeltl que eu deveria, mas, por algum motivo, jogadores que cumprem muito bem o papel pedido no esquema me chamam a atenção, e o pivô austríaco se encaixa perfeitamente nesse perfil. Ele foi o reserva imediato de Aldridge na maior parte da temporada e assumiu a titularidade após a lesão do camisa #12. Em 17,7 minutos por partida, o europeu teve médias de 5,6 pontos, 5,7 rebotes, 1,8 assistências e 1,4 tocos, tendo tido aproveitamento de 62,4% nos arremessos de quadra e tenebrosos 46,5% nos lances livres.

Ofensivamente, Poeltl é limitado: o jogador é completamente nulo enquanto arremessador (ele nem tenta jump shots), e sua função basicamente se resume a fazer corta-luzes e a cortar para a cesta, além de distribuir alguns passes ocasionalmente. Mas o jovem pivô executa isso muito bem.

Poeltl faz ótimos bloqueios, sendo o segundo jogador do Spurs com mais screen assists (isto é, corta-luzes que levam a cestas), com a marca de 3.6 por partida. Se ponderarmos esse número pela minutagem, o pivô não se torna apenas o líder de San Antonio na marca, mas também o quarto colocado em toda a NBA (considerando apenas jogadores com no mínimo 30 partidas), com média de 7,2 por 36 minutos. É claro que jogar com um finalizador no nível de DeRozan ajuda nesse quesito, mas o oposto também é verdade: corta-luzes do camisa 25 podem ter uma relação significativa com a eficiência de jogadores como o próprio DeRozan, Derrick White e Rudy Gay como ball handlers no pick and roll.

Essa capacidade de fazer bloqueios torna Poeltl extremamente eficiente como roll man, conseguindo não só facilitar para seus companheiros, como já mencionado, mas também sendo um bom finalizador na jogada. Sua marca de 1,31 pontos por posse é melhor que a de 82% da liga, mas isso é menos impressionante considerando que se espera números altos de jogadores da posição 5.

O austríaco também é ótimo cortando para a cesta. Seu aproveitamento é bem competente, mas abaixo do ideal para um pivô: Poeltl gera 1,35 pontos por posse em cortes (marca melhor que a de 63% da liga). Mas, para mim, o mais interessante nessa jogada é sua capacidade de conseguir essas tentativas, já que, para se liberar perto do aro, é necessária uma boa leitura de jogo e movimentação. Nesse aspecto, o europeu é excelente, tendo a décima quinta maior taxa de cortes para a cesta da NBA.

Como é possível imaginar pelos números anteriores, o jogador do Spurs não é um bom finalizador no aro para sua posição, convertendo 69,2% de suas tentativas (marca pior que dois terços dos pivôs com 100 ou mais tentativas na área restrita). Esse número já traz um ótimo retorno para a equipe, então não é um problema tão grande, mas está longe do ideal.

Além disso, Poeltl é um bom tomador de decisões, tendo a oitava melhor razão de assistências para turnovers da NBA dentre os pivôs. Ele não é exatamente um grande passador, tendo apenas a 27ª marca da liga em percentual de assistências dentre jogadores da posição, mas é certamente capaz de não cometer erros ao ter a bola em mãos.

Nos rebotes, porém, ele não é um grande talento. No lado ofensivo, ele até se sai bem, tendo percentual de rebotes acima da média dos pivôs, mas, no defensivo, acaba estando bem abaixo dela. Trata-se de um dos “cincos” da liga com menor DREB%. Isso tem um impacto de cerca de 2% no percentual da equipe nessa medida, o que é significativo, mas não tão grave: mesmo com ele em quadra, o Spurs é um time acima da média nessa medida.

O maior talento de Poeltl é a proteção de aro. Adversários chutaram apenas 49,6% perto da cesta quando defendidos pelo austríaco, SEXTA MELHOR marca de toda a NBA. O europeu é um dos melhores protetores de aro da liga, que é a função defensiva mais importante. O resultado disso? Com ele em quadra, o Spurs tem defensive rating de 108,9. Sem ele, a marca é de 112,7. Essa é a diferença entre a oitava melhor e a sexta pior defesa da NBA. Novamente vale frisar que isso não se deve só a um jogador, mas a proteção do aro é a parte defensivamente mais relevante do basquete, e o pivô é um dos melhores da liga nisso. Portanto, ele certamente impacta bastante nesse número.

Na maioria dos outros aspectos defensivos, Poeltl também se sai bem: nas (poucas) vezes em que foi forçado a marcar no perímetro em mano a mano, conseguiu ceder apenas 0,76 pontos por posse, e cedeu 1,02 pontos por posse para rollers em pick and roll (número decente considerando que trata-se de uma jogada normalmente muito eficiente). Como defensor de post, ele é digno, cedendo 0,92 pontos por posse (marca que para defensores de post é bem mediana, mas é o suficiente para que post ups contra ele não valham a pena).

Mas não se trata de um jogador perfeito defensivamente. Poeltl tem problemas com faltas, o que dificulta que ele tenha grande minutagem (3,8 faltas por 36 minutos, marca maior que 80% da NBA), além de ter tido desempenho ruim marcando jogadores físicos como Zion Williamson, Montrezl Harrell e Joel Embiid, cedendo mais de 50% de aproveitamento para todos eles.

Poeltl tem o maior net rating do Spurs. Isto é, é o jogador que tem o maior saldo de pontos da equipe comparando quando está em quadra e quando está fora. Ele definitivamente não é o melhor jogador do time (MUITO longe disso), mas talvez seja o mais eficiente em seu papel (que é pequeno). Isso passa muito pelo fato de ele ser um ótimo screener, ser um jogador inteligente se movimentando, tomar boas decisões com a bola e ser um excelente protetor de aro. Porém, trata-se de um jogador limitado, com péssimo desempenho em lances livres, que não é um grande finalizador no aro nem consegue converter jump shots, tem problemas com faltas e sofre contra jogadores físicos. Ainda assim, vejo seu saldo como bem positivo e ele como capaz de ser o quarto ou quinto titular de um grande time caso corrija alguns de seus problemas.