Spurs pode tirar valiosas lições da bolha

Se por um lado a bolha montada em Orlando para a retomada da temporada da NBA terminou com um gosto amargo para o San Antonio Spurs, que viu suas chances de classificação durarem até a última rodada, mas acabou encerrando sua sequência de 22 aparições consecutivas nos playoffs, por outro ver os prospectos do elenco ganharem minutos e jogarem competitivamente deu esperanças para o futuro da franquia. Assim, foi possível tirar valiosas lições para os próximos passos do alvinegro, tanto no Draft quanto no mercado de agentes livres. Duas delas saltam aos olhos: tamanho não necessariamente é um problema como parecia, mas a condução de bola não está tão resolvida quanto já aparentou.

Walker foi o único que apresentou visão de quadra melhorada (Reprodução/nba.com/spurs)

Entre os sete jovens do Spurs que ganharam minutos com consistência na bolha, cinco deles têm altura que sugere que atuem entre as posições 1 e 2. São eles: Dejounte Murray (239 minutos na bolha e 1,93m de altura), Lonnie Walker (221 minutos na bolha e 1,96m de altura), Derrick White (209 minutos na bolha e 1,93m de altura), Keldon Johnson (208 minutos na bolha e 1,96m de altura) e Quinndary Weatherspoon (63 minutos na bolha e 1,91m de altura). Os outros dois têm combinação de tamanho, agilidade e fundamentos que os deixa restritos à posição 5: Jakob Poeltl (206 minutos na bolha e 2,16m de altura) e Drew Eubanks (142 minutos na bolha e 2,06m de altura).

Assim, desde a retomada da temporada, o Spurs usou só dois jogadores com tamanho típico de um ala, posição cada vez mais importante na NBA moderna. Trata-se dos veteranos DeMar DeRozan, que com 1,98m teria tamanho para flutuar entre as posições 2 e 3, e Rudy Gay, que com 2,03m de altura teria tamanho para flutuar entre as posições 3 e 4.

Mas foi comum para o Spurs usar três de seus prospectos ao mesmo tempo, ou dois deles ao lado de Patty Mills (1,85m de altura) ou Marco Belinelli (1,96m de altura), na bolha de Orlando. Assim, DeRozan passou a jogar minutos na posição 4, começando o jogo como titular ao lado de Murray, White, Walker e Poeltl.

Mesmo com formações de perímetro muito mais baixas do que manda o manual da NBA moderna, o Spurs jogou seu basquete mais competitivo na temporada. Como exemplos, venceu o Sacramento Kings, o Memphis Grizzlies e o New Orleans Pelicans, que iniciaram com quatro jogadores tão ou mais altos que DeRozan, o Utah Jazz, que escalou três jogadores mais altos que o camisa #10 do alvinegro como titulares, e o Houston Rockets, que começou com dois jogadores maiores que o astro do time de San Antonio.

Claro que altura sempre será bem vinda no basquete. Na recente derrota para o Denver Nuggets, por exemplo, o Spurs tomou 30 pontos de Michael Porter Jr,  que do alto de seus 2,08m jogou na posição três e simplesmente arremessou por cima de seus marcadores. Mas esse é um problema que a maioria das equipes enfrenta. É difícil achar jogadores que combinem o tamanho e a agilidade necessária para conter pontuadores versáteis do tipo.

Uma combinação de fatores faz com que o caso do ala do Nuggets possa ser considerado exceção. Murray, White, Walker, Johnson e Weatherspoon não são exatamente baixos, e todos têm bons fundamentos defensivos. Além disso, a combinação de comissões técnicas cada vez mais inteligentes na NBA moderna e a evolução do preparo físico, que faz com que jogadores consigam dobrar a marcação e se recuperar para contestar um possível arremessador livre o mais rapidamente possível, faz com que seja cada vez mais difícil explorar um marcador baixo perto da cesta.

Spurs precisa de organizadores mais confiáveis

Quem olha as escalações do Spurs na bolha, com cinco prospectos das posições 1 e 2 ganhando minutos ao lado de DeRozan, pode imaginar que o time teve a movimentação de bola como ponte forte em Orlando. Mas a realidade é bem diferente. A equipe teve o ataque estagnado em várias oportunidades e se viu dependente do camisa #10 em momentos decisivos. O problema ficou ainda mais evidente na vitória sobre o Pelicans, em que o alvinegro viu uma vantagem de vinte pontos evaporar após White sair machucado.

É difícil usar estatísticas para medir o QI de basquete de um jogador, uma qualidade que costuma-se chamar de “intangível”. Mas um jeito de ajudar a percebê-lo é a relação entre assistências e turnovers de um determinado atleta. E os números dos prospectos do Spurs eram razoáveis antes da bolha.

Mas desde a retomada da temporada, quando os prospectos passaram a jogar mais com a bola nas mãos, Walker foi o único que progrediu na estatística, o que mostra que os demais apresentavam desempenho melhor quando atuavam cercados de veteranos – especialmente DeMar DeRozan e LaMarcus Aldrige, que desfalcou o Spurs na bolha de Orlando.

Claro que as coisas não são preto no branco para jovens prospectos que estão nessa altura na carreira, e muita coisa boa foi mostrada. Walker bateu seu recorde pessoal ao distribuir seis assistências na recente vitória sobre o Pelicans, já na bolha, e arrancou elogios de Gregg Popovich. Já Johnson, apesar de não de criar muito para os outros, mostrou facilidade para cavar faltas em infiltrações e chegar à linha dos lances livres com consistência.

Mas os números mostram que o Spurs pode ter muitos problemas caso DeRozan opte por sair de seu contrato e virar agente livre. Além de ser o mais alto jogador de perímetro do elenco, o ala-armador é o mais capaz comandante de ataque que o time tem hoje. O camisa #10 terminou a temporada com 380 assistências e 164 turnovers, o que significa 2,32 passes para cesta a cada desperdício de posse.

Spurs pode atacar carências no Draft. E a agência livre?

Mesmo caso DeRozan decida cumprir seu último ano de contrato com o Spurs, é possível concluir que o ideal seria a franquia achar jogadores que possam defender adversários com tamanho de ala e que possam ajudar a organizar o ataque do time. Uma combinação bem específica, o que pode tornar a busca por reforços ingrata.

O primeiro passo para isso seria cumprir um bom papel no Draft. O scout brasileiro Rafael Uehara colocou, em seu Draft Board, o papel que espera que cada prospecto cumpra dos dois lados da quadra na NBA. Ele lista, por exemplo, Tyrese Haliburton como um condutor de bola que pode ajudar em rotações defensivas.

Armador de 20 anos de idade 1,96m de altura, Haliburton é um jogador de muito QI de basquete e altruísmo, o que o faz parecer um fit natural para o Spurs. Como tem bom aproveitamento nos arremessos, mas abre mão de bolas fáceis para assistir seus companheiros com frequência, é adorado por franquias que valorizam os números, mas levanta preocupação em quem prefere observar os prospectos mais de perto. De qualquer jeito, funcionaria bem ao lado de um condutor de bola como DeRozan, já que tem altura e fundamentos bons o bastante para marcar jogadores da posição dois, por exemplo. Na temporada, sua segunda no basquete universitário americano, apresentou médias de 15,2 pontos, 6,5 assistências, 5,9 rebotes e 2,5 roubadas de bola em 36,7 minutos por exibição por Iowa State, convertendo 50,4% de seus arremessos de quadra, 41,9% de seus tiros de três e 82,2% de seus lances livres. Pode estar ao alcance da franquia texana na primeira rodada.

Para a segunda, uma opção que Uehara coloca com perfil parecido seria Abdoulaye N’Doye. Armador francês de 22 anos de idade e 1,98m de altura, disputou 26 partidas pelo Cholet Basket na última temporada, apresentando médias de 10,2 pontos (52,2% FG, 42,9% 3 PT, 75% FT), 4,3 rebotes e 3,9 assistências em 30,8 minutos por exibição.

Na agência livre, as coisas ficam um pouco mais complicadas. Nomes como Brandon Ingram (2,01m de altura, 259 assistências e 189 turnovers na temporada) e Bogdan Bogdanovic (1,98m de altura, 207 assistências e 102 turnovers na temporada) são restritos, o que significa que Pelicans e Kings podem igualar as propostas feitas por eles. Assim, é difícil imaginar um cenário em que a franquia texana consiga roubar um dos dois.

Assim, o Spurs precisará ser criativo para atacar suas carências, especialmente se tiver que se virar sem DeRozan.

Sobre Lucas Pastore

Um dos fundadores do Spurs Brasil. Formado em Jornalismo na Universidade Presbiteriana Mackenzie em 2010, é editor assistente do UOL Esporte. Cobriu o basquete olímpico na Olimpíada de 2016 pelo LANCE!. Trabalhou também para Basketeria e mob36.

Publicado em 16/08/2020, em Análises, Artigos. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.