Quem o Spurs escolheu no Draft de 2019

Um ala-pivô e dois alas-armadores: esse foi o saldo do San Antonio Spurs no Draft de 2019, realizado nessa quinta-feira (20), em Nova York. Carente principalmente de opções para as posições 3 e 4, a franquia texana, que tradicionalmente seleciona o melhor jogador disponível, parece ter olhado com um pouco mais de carinho para as necessidades de seu elenco ao escolher Luka Samanic na 19ª colocação e Keldon Johnson na 29ª. Na segunda rodada, o alvinegro fugiu um pouco do script ao fisgar Quinndary Weatherspoon na 49ª posição.

Como dito na análise pré-Draft do Spurs Brasil, as alas foram o principal problema do time de San Antonio na temporada 2018/2019. Entre as opções disponíveis, apenas DeMar DeRozan e Davis Bertans seguem sob contrato. Rudy Gay é agente livre irrestrito, embora a imprensa americana trabalhe com a informação de que ele tende a renovar contrato com a franquia.

Vale lembrar, porém, a postura conservadora que o treinador Gregg Popovich costuma adotar com os seus novatos. A maioria não costuma ganhar muitos minutos competitivos, especialmente em jogos importantes. Com isso, é de se esperar que Samanic e Johnson vão passar um ano prioritariamente se desenvolvendo e aprendendo o esquema tático do time no Austin Spurs antes de tentarem entrar na rotação da equipe de San Antonio.

Se de fato manter Gay e não renovar com Quincy Pondexter, Dante Cunningham e Donatas Motiejunas, o Spurs terá 12 jogadores sob contrato para a temporada 2019/2020. Com Samanic e Johnson, esse número sobe para 14, deixando só uma vaga aberta. Ela pode ser um de agente livre, de um stash como Nikola Milutinov ou de Weatherspoon, que também pode assinar um contrato no formato two-way. Em outras palavras, as grandes novidades para a próxima campanha devem ser o retorno de lesão de Dejounte Murray e o processo de maturação de Lonnie Walker e Chimezie Metu, que concluíram o tal ano de adaptação na G-League e podem enfim disputar tempo de quadra na equipe de Popovich.

Isto posto, vamos ao que se pode esperar dos novos jogadores ligados ao Spurs a médio e longo prazo. Para isso, tomemos como base análises de Jonathan Givony, da ESPN, e Sam Vecenie, do The Athletic, respeitados analistas de prospectos da imprensa americana.

Luka Samanic

Comissário da NBA, Adam Silver recebe Luka Samanic (Reprodução/foxsports.com)

Comissário da NBA, Adam Silver recebe Luka Samanic (Reprodução/foxsports.com)

Quem acompanhou o noticiário ligado ao Spurs nas últimas semanas sabia o quanto a franquia estava interessada em Samanic. General Manager da franquia, R.C. Buford foi pessoalmente até a Europa para observar o jogador, que ainda fez treinos privados com representantes da comissão técnica do alvinegro e teve bom desempenho no Combine, principal evento pré-Draft para os prospectos de destaque. Porém, quando a escolha 19 chegou, nomes como Nassir Little e Brandon Clarke, que estavam projetados para o top 10, ainda estavam disponíveis, o que fez com que o recrutamento do europeu provocasse certa decepção.

Ala croata de 19 anos de idade e 2,10m de altura, Samanic teve médias de oito pontos (48,4% FG, 33,8% 3 PT, 72,2% FT) e 4,8 rebotes em 18,4 minutos por exibição na última temporada, sua primeira como profissional, defendendo as cores do Union Olimpija. Algumas das suas qualidades casam perfeitamente com o que o Spurs costuma procurar e valorizar, já que trata-se de um jogador habilidoso, inteligente e com boa visão de quadra.

Com sua combinação de ferramentas físicas e técnicas, Samanic pode se tornar uma grande arma ofensiva no pick-and-roll. Isso porque tem capacidade para arremessar, para atacar o aro ou para passar a bola após receber passes em movimento. Além disso, pode jogar de costas para a cesta, pode espaçar a quadra como arremessador do perímetro e pode até mesmo usar a habilidade para atacar adversários mais lentos a partir do drible. Tudo isso porque, apesar do tamanho, se destaca pela coordenação motora, pela agilidade e pela fluidez dos movimentos.

Porém, apesar de saber fazer um pouco tudo, Samanic não é elite em nenhum fundamento ofensivo e ainda precisa trabalhar em todas as áreas do jogo. Além disso, costuma ter dificuldades para finalizar sob contato, e a tradicional temporada de novato em Austin será importantíssima para que ele aprenda a lidar com o nível de atleticismo da NBA. Por fim, precisa trabalhar também o aspecto mental, já que costuma reagir mal quando erra arremessos seguidos e precisa manter-se focado para ser consistente em momentos de adversidade.

Na defesa, a versatilidade de Samanic parece ser ainda mais importante do que no ataque. Isso porque o ala-pivô tem pés leves o bastante para defender jogadores de perímetro em trocas de marcação. Além disso, a dificuldade que ele tem para produzir sob contato ofensivamente não existe aqui, e sua capacidade de ser “duro” na marcação e na proteção do aro foi uma das maiores evoluções do seu jogo em sua primeira temporada como profissional.

Em outras palavras, se conseguir se desenvolver bem, Samanic pode atuar ao lado de qualquer jogador de garrafão do elenco do Spurs. Pode espaçar a quadra para LaMarcus Aldridge e Jakob Poeltl e pode jogar como pivô tradicional quando Davis Bertans ou Rudy Gay estiverem na posição 4. Além disso, tem potencial para formar dupla de interessante versatilidade dos dois lados da quadra com Chimezie Metu. Analisando o plantel, talvez tenha de fato um encaixe mais natural do que Brandon Clarke teria. Mas talvez a franquia se arrependa de não ter selecionado Nassir Little, que parece ser justamente o ala que a equipe estava precisando.

Keldon Johnson

Keldon Johnson com boné do Spurs (Reprodução/kentucky.com)

Quando a escolha 29 chegou, a maioria dos jogadores interessantes com tamanho de um ala moderno da NBA já havia sido escolhida. Neste cenário, restou ao Spurs selecionar Keldon Johnson. Ala-armador de 19 anos de idade e 1,98m de altura, acaba de concluir sua primeira temporada no basquete universitário americano, na qual apresentou médias de 13,5 pontos (46,1% FG, 38,1% 3 PT, 70,3% FT) e 5,9 rebotes em 30,7 minutos por exibição defendendo as cores de Kentucky. Com sua listagem oficial de tamanho, já se torna o segundo jogador mais alto de perímetro do elenco, superando Dejounte Murray, Marco Belinelli e Lonnie Walker, todos com 1,96m, e ficando atrás somente de DeMar DeRozan, que tem 2,01m.

Apesar de não ter exatamente a altura de que o Spurs sente falta, Johnson compensa com força física e uma enorme envergadura, o que pode fazer até com que ele exerça a função de Rudy Gay como um ala-pivô mais leve em escalações mais baixas. Além disso, tem outras virtudes que podem ser muito úteis nesse plantel. Entre elas, duas chamam atenção por serem características que a franquia costuma valorizar: a dedicação na defesa e o caráter no vestiário, que combina bem com a cultura que o alvinegro tenta desenvolver.

É justamente na defesa que Johnson pode encontrar seu caminho para o sucesso no Spurs. Marcador e reboteiro competitivo, costuma jogar deste lado da quadra com firmeza, confiança e intensidade. Por isso, é de se imaginar que o ala-armador pode ser alguém útil mesmo se não evoluir muito em outras habilidades. Porém, ainda precisa desenvolver um pouco seus instintos e aprender como pode ser efetivo ao tentar conter jogadores menores e mais rápidos.

No ataque, Johnson pode usar a força física para atacar o aro se tiver uma rota aberta para isso, especialmente em transição, e é capaz de converter bolas de três pontos se estiver livres e com os dois pés estabelecidos no chão. Porém, não é um arremessador dinâmico, tem uma mecânica lenta e não consegue produzir para ele mesmo ofensivamente com consistência.

Em outras palavras, o prospecto pode se tornar um complemento útil em um elenco cheio de jogadores capazes de criarem com a bola nas mãos, como Dejounte Murray, Derrick White, DeMar DeRozan e LaMarcus Aldridge. Qualquer coisa além disso será uma agradável surpresa.

Quinndary Weatherspoon

Vai demorar até a gente aprender a escrever Weatherspoon (Reprodução/clarionledger.com)

Na segunda rodada, em uma altura em que o Draft já estava caminando para a sua reta final, o Spurs pareceu olhar menos para as necessidades do elenco e simplesmente pegou o jogador que mais lhe interessava. Ala-armador de 22 anos de idade e 1,93m de altura, Quinndary Weatherspoon acaba de concluir a sua quarta e última temporada no basquete universitário americano, na qual apresentou médias de 18,5 pontos (50,8% FG, 39,6% 3 PT, 80,9% FT) e 4,7 rebotes em 34 minutos por exibição defendendo as cores de Mississippi State.

A princípio, é difícil imaginar como um jogador desse tamanho pode entrar em uma rotação que tem Dejounte Murray, Patty Mills, Bryn Forbes, Derrick White, DeMarDeRozan e Marco Belinelli para as posições 1 e 2. Mas Weatherspoon compensa a falta de altura com envergadura típica de um ala-pivô e muita força física, o que dá ao jogador muita versatilidade, especialmente na defesa. Assim, é comparado a Gary Harris, titular do Denver Nuggets.

A velocidade dos seus pés, seu espírito competitivo e sua perícia em antecipações fazem com que Weatherspoon seja uma escolha de valor nesta altura do Draft. Além disso, ele se tornou um arremessador confiável em sua última temporada na NCAA, convertendo bolas de três pontos quando conseguia plantar os dois pés no chão apesar da mecânica lenta. Além disso, pode funcionar como um condutor de bola secundário, já que é capaz de criar a partir do pick-and-roll.

O ala-armador se apresentou bem no Portsmouth Invitational e no Draft Combine, dois importantes eventos para prospectos nos Estados Unidos no processo que antecede o recrutamento de calouros, e foi premiado com a escolha do Spurs. Agora, vai precisar batalhar muito para conseguir cavar uma vaga no elenco profissional e se firmar na rotação de Popovich.

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Sobre Lucas Pastore

Um dos fundadores do Spurs Brasil, seu maior orgulho na carreira jornalística. Formado em Jornalismo na Universidade Presbiteriana Mackenzie em 2010, é redator do UOL. Cobriu o basquete olímpico na Olimpíada de 2016 pelo LANCE!. Trabalhou também para Basketeria e mob36.

Publicado em 21/06/2019, em Análises, Artigos, Draft. Adicione o link aos favoritos. 7 Comentários.

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