Como fica a rotação sem Tony Parker?

Se quiser manter vivo o sonho do hexa ainda neste ano, o San Antonio Spurs precisará rapidamente se adaptar ao desfalque de Tony Parker. O armador, que registrou médias de 15,9 pontos (52,6% FG, 57,9% 3 PT, 100% FT) e 3,1 assistências em 26,4 minutos por jogo nos playoffs, rompeu o tendão do quadríceps do joelho esquerdo durante a vitória sobre o Houston Rockets no jogo 2 da semifinal da Conferência Oeste e terá de passar por cirurgia, encerrando sua participação nesta temporada. Quem Gregg Popovich usará em seu lugar?

Tony Parker vai fazer falta para o Spurs (Mark Sobhani/nba.com/spurs)

Se a lesão viesse durante a temporada regular, a resposta para essa pergunta seria simples: Dejounte Murray assumiria a vaga. Pop gosta de montar sua rotação de modo que a segunda unidade jogue junta. Por isso, quando alguém da equipe titular vira desfalque, o treinador começa as partidas com a terceira opção do elenco para não ter de mexer também na química do time reserva. Com isso, Patty Mills provavelmente ganharia mais tempo de quadra, mas seus minutos ao lado de nomes como Manu Ginobili e David Lee seguiriam intactos.

A questão é que a filosofia do treinador também envolve, salvo raras exceções, um imenso conservadorismo na utilização de novatos nos playoffs. Em 2011, Tim Duncan, Antonio McDyess, Matt Bonner e DeJuan Blair eram castigados por Zach Randolph e Marc Gasol na surpreendente derrota para o Memphis Grizzlies, e Tiago Splitter continuava afundado no banco de reservas. Na temporada seguinte, Kevin Durant pontuava com facilidade sobre Stephen Jackson enquanto o Oklahoma City Thunder ganhava quatro jogos seguidos sobre o Spurs e virava a série, sem que os minutos de Kawhi Leonard aumentassem por isso. No ano passado, o mesmo time usou Steven Adams, Serge Ibaka e Enes Kanter para atacar fisicamente o garrafão do alvinegro, sem resposta à altura de David West e Boris Diaw, com Boban Marjanovic sem nem sequer ser testado como alternativa.

Como, então, montar a rotação sem Murray e com apenas Mills para preencher a armação? O próprio adversário ajuda a responder. É importante perceber como a NBA evoluiu de modo que as funções dos jogadores em quadra não estejam mais atreladas às atribuídas tradicionalmente para cada posição. James Harden foi muitas vezes escalado como ala-armador, mas sua função sempre foi comandar o ataque do Rockets como um armador clássico. O mesmo pode ser dito dos alas LeBron James, do Cleveland Cavaliers, e Giannis Antetokounmpo, do Milwaukee Bucks. Provavelmente será assim também no Philadelphia 76ers quando Ben Simmons tiver condições de entrar em quadra. Draymond Green, que aparece na ficha do Golden State Warriors como ala-pivô, às vezes tem funções de armador, e às vezes tem funções de pivô. Por fim, Nikola Jokic, alto e pesado como um pivô tradicional, é quem rege o ataque do Denver Nuggets. Estes são os exemplos mais notáveis.

Assim, imagino que a ausência de Parker oficialize definitivamente Leonard como criador da primeira unidade. O ala tocou na bola 4.193 vezes durante a temporada regular, maior marca de todo o elenco, e ficou com ela por 247 minutos, atrás apenas de Parker, com 320, e Mills, com 254. O australiano se tornaria então o titular na posição 1. Com isso, o time texano perderia em criatividade, já que o francês é talvez quem melhor saiba envolver os companheiros em todo o plantel, mas ganha em poder de fogo, com mais um arremessador para ajudar a tirar a responsabilidade de Danny Green nas bolas de três pontos.

Nos playoffs, Mills tem aproveitamento de 48,5% nos tiros de perímetro, terceira melhor marca do Spurs entre quem tentou mais de duas bolas do tipo, só atrás de Parker (57,9%) e Leonard (50%). O que torna o australiano mais perigoso do que o francês no fundamento é o volume: foram 33 arremessos do tipo na pós-temporada, contra somente 19 do camisa #9.

Como fica, então, a segunda unidade? Sem Mills, cabe a Manu Ginobili se firmar definitivamente como regente. Durante a temporada regular, o ala-armador criou 435 pontos com seus passes, quarta melhor marca do elenco, atrás de Parker (648), Leonard (643) e Mills (634). Mas vale ressaltar que, entre os quatro, o argentino foi aquele que menos jogou: foram 1.266 minutos, contra 1.571 do francês, 1.754 do australiano e 2.457 do ala.

A ausência de Mills na segunda unidade deve aumentar a importância de Jonathon Simmons, que vem de ótima atuação no jogo 2, quando deixou a quadra com 14 pontos e duas assistências em 20 minutos. O ala-armador tem médias de 12,5 pontos e 1,5 assistências em 20,5 minutos por exibição na série contra o Rockets.

Deste modo, Pop precisa ajustar sua rotação para ter sempre Leonard ou Ginobili em quadra. Sem Parker, os dois passam a ser os principais comandantes do ataque do Spurs. O treinador pode enxugar sua rotação de perímetro assim como fez com o garrafão, usando apenas Mills, Green e Simmons, assim como usou somente David Lee como reserva para LaMarcus Aldridge e Pau Gasol no garrafão durante o jogo 2. Destes, argentino é o único que tem idade avançada e pode sentir se seus minutos forem aumentados drasticamente.

Caso algum dos cinco jogadores de perímetro citados canse, se machuque ou fique pendurado por faltas, mesmo assim não creio que Pop vá mudar sua filosofia conservadora em relação aos novatos. Neste caso, imagino que Kyle Anderson, que já jogou 67 minutos nos playoffs, seja acionado antes de Murray, que atuou apenas por 23.

Quem torce para que o armador seja escalado pode apoiar suas esperanças nas exceções de Pop no tratamento aos novatos. Nomes como George Hill, Gary Neal e DeJuan Blair foram utilizados pelo treinador em jogos de playoffs logo em suas temporadas de estreia na NBA. Mas, convenhamos, estes jogadores faziam muito mais parte da rotação do que Murray, que atuou por somente 321 minutos na temporada regular, ficando à frente somente de Bryn Forbes, com 285, e Joel Anthony, contratado na reta final do campeonato, com 122.

Espere Leonard e Ginobili comandando o ataque do Spurs, com Mills e Simmons servindo como condutores de bola secundários. É o que a história dá a entender que Pop fará.

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Sobre Lucas Pastore

Um dos fundadores do Spurs Brasil, seu maior orgulho na carreira jornalística. Formado em Jornalismo na Universidade Presbiteriana Mackenzie em 2010, é redator do UOL. Cobriu o basquete olímpico na Olimpíada de 2016 pelo LANCE!. Trabalhou também para Basketeria e mob36.

Publicado em 05/05/2017, em Análises, Na linha dos 3. Adicione o link aos favoritos. 7 Comentários.

  1. Excelente análise, creio eu que para a vaga deixada na segunda unidade, com a saídade Ginobili ou Mills, quem deveria ganhar espaço é Bertans, mas imagino que Anderson seja o escolhido, infelizmente.

    • Obrigado pelo elogio, Marcelo! Eu também preferia o Bertans, mas além de se tratar de mais um novato ele é utilizado exclusivamente pelo Pop como ala-pivô e nunca como ala

  2. pauloricardo09

    Dejounte Murray começará jogando, mas vamos ver quanto será seu tempo de quadra…

  3. Pessima atuacao do murray no 1 tempo
    Errou td !!! Tony parker fazendo muita falta…
    Esse jogo 3 o Houston está nos dando chance de vencer apesar da atuacao mediana do spurs

  4. Oi lucas pasture. É verdade que spurs vai contratar o sérvio Milos Teodosic ?

  1. Pingback: Spurs (2) vs Rockets (1) – Por Tony Parker! | Spurs Brasil

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