Amostra empolgante

A noite de sexta-feira (12) foi especial para um dos titulares do San Antonio Spurs durante a vitória por 69 a 68 sobre o Charlotte Bobcats, em jogo válido pela Summer League de Las Vegas. O jovem DeShaun Thomas, que foi selecionado pela franquia texana na 58ª escolha do Draft deste ano, fez sua estreia no esporte profissional após passar três anos atuando no basquete universitário americano. E respondeu bem: o ala, de 21 anos de idade e 2,01m de altura, foi escalado na posição 4 e anotou 18 pontos (7-13 FG, 2-4 3 PT, 2-2 FT), três rebotes e duas roubadas de bola em 32:49 minutos. Entre os defeitos e as virtudes que exibiu em sua primeira experiência de NBA, o atleta mostrou que pode ter sido outro achado do alvinegro.

Thomas teve estreia empolgante com o Spurs (Reprodução/spurs.com)

Thomas teve estreia empolgante com o Spurs (Reprodução/spurs.com)

Em relatório feito pelo DraftExpress, meu site predileto sobre prospectos, antes do recrutamento de calouros, foram apontadas algumas ressalvas em relação ao jogo de Thomas: as principais em relação à defesa e à capacidade de pegar rebotes. E, de, fato, nestes dois aspectos, o ala tem muito o que aprender antes de poder atuar em alto nível na NBA.

De certo modo, o adversário ajudou um pouco. O jogo marcou também a estreia profissional de Cody Zeller, ala-pivô de 20 anos de idade e que foi a quarta escolha do Draft deste ano. O novo jogador do Bobcats também gosta de atuar afastado da cesta, mas, ao contrário de Thomas, tem um biotipo típico de um homem de garrafão, mais pesado, até, do que o do atleta do Spurs. Além disso, a aposta do time de Charlotte não teve uma grande exibição, deixando a quadra com apenas oito pontos (4-9 FG) e cinco rebotes em pouco menos de 30 minutos. Mesmo assim, algumas deficiências do prospecto do time de San Anonio ficaram evidentes.

Thomas jogou no garrafão, mas, mesmo atuando quase 33 minutos, coletou somente três rebotes. Cheguei a ficar animado quando, no primeiro tempo, após lance livre errado pelo Bobcats, o jogador executou com precisão o box out e manteve Zeller, que é 12 cm mais alto e 9 kg mais pesado, afastado da bola para coletar o ressalto. No entanto, a falta de talento do ala do Spurs no fundamento foi ficando cada vez mais evidente – no segundo quarto, por exemplo, ele cedeu uma segunda chance para o adversário ao se posicionar mal após um arremesso que pegou no aro e permitiu que o ala-pivô de Charlotte recuperasse a redonda.

Ficou claro que, apesar de ser escalado por Ime Udoka, técnico do Spurs na Summer League, na posição quatro, Thomas não possui o cacoete de um jogador de garrafão na hora de se posicionar para o rebote. Dos três ressaltos que coletou, o único em que atacou a bola com vontade, como manda o manual da função, aconteceu no terceiro período.

Na defesa, Thomas fez um bom trabalho mantendo um jogador mais alto e mais forte afastado da cesta – ainda que, é bem verdade, Zeller não tenha feito muita questão de se posicionar perto do garrafão. As deficiências do prospecto do Spurs, no entanto, ficaram claras quando sua velocidade foi exigida – especialmente na defesa do pick-and-roll. Quando precisou fechar a porta dos armadores do Bobcats que chamaram a jogada e, em seguida, se recuperar para contestar o arremesso do homem que estava marcando, foi lento demais. Cedeu uma cesta de três pontos para Patrick Ewing Jr. no primeiro quarto e deu sorte ao ver a quarta escolha do último Draft errar dois arremessos no segundo período.

As deficiências de Thomas ficaram ainda mais expostas nos segundos finais da partida e poderiam ter custado a vitória ao Spurs. Quando restavam 1:46 minutos para o fim do jogo, com o time texano vencendo por 65 a 64, o ala caiu na finta de Zeller, que fingiu que ia arremessar, e permitiu a infiltração do jogador do Bobcats, que, por sorte, acabou cometendo falta de ataque ao encontrar outro marcador. Posteriormente, com o alvinegro de San Antonio na frente por 67 a 65, um rebote caiu nas mãos do prospecto, que, pouco atento, permitiu que a nova aposta da franquia de Charlotte desse um tapão na bola e quase a roubasse.

Se nos rebotes e na defesa Thomas ainda tem muito o que aprender, no ataque ele mostrou porque pode ter sido um achado para o Spurs. Com precisão e eficiência – foram 18 pontos em 13 arremessos -, o ala empolgou e, mesmo após um começo ruim, mostrou que pode ser aproveitado imediatamente por um time de NBA.

Thomas errou os três primeiros arremessos que tentou no jogo. No primeiro, recebeu a bola perto da linha de fundo, pela esquerda, após reposição de bola, e, em movimento, tentou um tiro de média distância. Depois, pelo outro lado, se posicionou perto do garrafão, de costas para a cesta, e tentou, sem sucesso, um post move. O ala ainda perderia a chance de converter, da cabeça do garrafão, um spot up – lance em que o jogador recebe a bola, já posicionado para o tiro, e apenas o executa, sem sair do lugar.

Mesmo com o começo ruim, Thomas teve personalidade para continuar arremessando e, ainda no primeiro período, conseguiu pontuar. O ala enfim saiu do zero após estabelecer um bloqueio e, em seguida, se movimentar em direção à direita da cabeça do garrafão para receber a bola. Com ela em mãos, driblou para o lado e converteu. Ainda no quarto inicial, o jogador conseguiu um buzzer beater com um spot up longo de dois pontos pela direita.

Com o bom fim de primeiro quarto, Thomas ganhou moral e pegou fogo. No segundo período, o ala recebeu a bola pela direita, perto da linha de fundo, fintou Zeller, infiltrou e cavou falta, convertendo seus dois lances livres. Depois disso, converteu um spot up de três centralizado.

Antes do intervalo, Thomas ainda levou um toco, após receber a bola na cabeça do garrafão e tentar uma infiltração pela esquerda, e andou em uma tentativa de post move após ser acionado de costas para a cesta, perto do garrafão, pelo mesmo lado.

Na volta dos vestiários, Thomas foi mantendo um ritmo interessante. No terceiro período, começou convertendo um spot up de três pela direita, e, em seguida, errou um arremesso do mesmo tipo. Depois, recebeu a bola do lado direito da cabeça do garrafão, conseguiu boa finta sobre Zeller e partiu para uma bela bandeja, sem marcação. Com moral, tentou um spot up um pouco afastado da linha do perímetro ao receber a bola em transição, mas acabou errando.

No único tiro que tentou no quarto final, Thomas acertou um spot up da cabeça do garrafão.

A princípio, é possível notar que o Spurs pode aproveitar Thomas, de cara, como protagonista do pick-and-pop. Apesar de ter feito uma falta de ataque na jogada no terceiro quarto, o ala estabeleceu bons corta-luzes para Nando De Colo e Cory Joseph – inclusive quando estava com a bola na mão, em jogada parecida com a que Tim Duncan costuma fazer com Tony Parker – e sempre se posicionou bem para arremessar no perímetro. O prospecto se entendeu bem, principalmente, com o francês, de quem recebeu três assistências.

Além disso, ficou clara a preferência de Thomas pelo lado direito da quadra. Quando foi acionado por ali, o jogador acertou quatro dos seis arremessos que tentou e ainda cavou a falta que rendeu seus dois únicos lances livres na partida, também convertidos. Isso pode torná-lo uma boa peça complementar no elenco, já que dois dos três membros do Big Three se deram melhor pela esquerda ao longo da última temporada regular.

Veja, abaixo, o gráfico de arremessos de Tim Duncan:

Reprodução/vorped.com

Reprodução/vorped.com

A tendência foi a mesma com Manu Ginobili:

Reprodução/vorped.com

Reprodução/vorped.com

A exceção no trio foi Tony Parker:

Reprodução/vorped.com

Reprodução/vorped.com

Na previsão mais pessimista possível, Thomas pode se tornar um jogador unilateral, bom apenas no pick-and-pop e como arremessador. Nos spot ups, o prospecto do Spurs acertou quatro dos sete arremessos que tentou no jogo. Atrás da linha dos três pontos, converteu dois de quatro nessa jogada. Em outras palavras, pode se tornar algo parecido com Matt Bonner, mas mais barato – vale lembrar que o Red Rocket vai receber pouco mais de US$ 3,9 milhões na próxima temporada, sua última de contrato com a franquia texana.

Mas, sendo bem mais otimista, Thomas pode incorporar alguns talentos de Boris Diaw em seu desenvolvimento. O prospecto deixou claro que também arrisca alguns post moves, ao contrário de Bonner, e também demonstrou algum potencial nos passes – fez um bom trabalho, no perímetro, reagindo às rotações defensivas e dando um passe extra para encontrar um arremessador melhor posicionado, e também tentou um passe ousado da cabeça do garrafão para Aron Baynes, que estava embaixo da cesta – o lance acabou não dando certo.

Além disso, o ala-pivô francês também é lento, mas consegue defender até jogadores mais rápidos de perímetro – como fez com LeBron James durante a final contra o Miami Heat – por saber se posicionar e fazer bom uso do corpo. Algo que Thomas pode aprender.

Hoje, o elenco do Spurs tem 14 atletas – um a menos do que o máximo permitido pela NBA. Se Gary Neal não renovar, Thomas parece ser, entre os prospectos, aquele que tem mais chances de emplacar um contrato – Marcus Denmon e Ryan Richards, que também estão na Summer League, estão em um estágio atrasado de maturidade em relação ao ala. De qualquer modo, tomando como base na pequena amostra de uma partida, a franquia parece ter encontrado outro jogador que pode colaborar – mesmo que não imediatamente.

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Sobre Lucas Pastore

Um dos fundadores do Spurs Brasil, seu maior orgulho na carreira jornalística. Formado em Jornalismo na Universidade Presbiteriana Mackenzie em 2010, é redator do UOL. Cobriu o basquete olímpico na Olimpíada de 2016 pelo LANCE!. Trabalhou também para Basketeria e mob36.

Publicado em 13/07/2013, em Na linha dos 3, Summer League. Adicione o link aos favoritos. 6 Comentários.

  1. Parabéns pela aula de basquete camarada. Thomas parece q entrou ‘frio’ pro jogo, depois q ‘esquentou’ a mira funcionou. Tomara q o Spurs tenha acertado novamente (Manu foi 57ª escolha né)

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