Arquivo diário: 15/06/2013

Danny, enfim, verde

Quando se repete pelos quatro cantos do mundo o sucesso que o San Antonio Spurs teve no Draft desde que Gregg Popovich assumiu o cargo de treinador do time, minimiza-se, quase que de modo injusto, o talento que talvez seja o maior ponto forte da franquia no período: o desenvolvimento de jogadores. Basta olhar para o chamado Big Three: Tim Duncan colecionou um dos repertórios mais completos que já vi para um homem de garrafão, Manu Ginobili encontrou um meio de fazer sua genialidade causar impacto na NBA e Tony Parker, principalmente, deixou de ser um armador unilateral para se tornar um astro. Agora, para os torcedores mais novos da equipe, é possível notar a influência deste trabalho em uma peça fundamental da equipe: o ala-armador Danny Green.

Eis o nome e o número do homem (NBA/Getty Images)

Ao contrário do que muitos pensam, às vezes o desenvolvimento de um jogador não é um processo técnico. Claro que é mais fácil perceber o arremesso de três pontos de Kawhi Leonard e o lance livre de Tiago Splitter melhorando, mas não é só assim que a franquia pode ajudar seu atleta a crescer. Às vezes, a evolução precisa ser tática – como foi com Manu, que, apesar de manter o improviso como uma de suas maiores armas, o faz adaptado ao esquema de Pop. E, às vezes, a evolução tem de ser psicológica. Foi o caso de Green.

Para quem acompanha qualquer modalidade profissional, é óbvio ver a influência que a confiança pode ter sobre um atleta. É o caso de Usain Bolt passando a certeza de que vai ganhar antes das grandes finais e daquele centroavante que vive jejum de gols e que passa a perder oportunidades que não costuma desperdiçar. Caso se trate de um esporte coletivo, cabe à equipe dar condições e suporte para que seu jogador se sinta o mais confiante possível para desempenhar seu papel. E o Spurs parece ter feito bem isso com Green.

O ala-armador não parece reagir mal à frustração. Afinal de contas, não deve ter sido fácil ser dispensado por um Cleveland Cavaliers que acabara de perder LeBron James e que teve Anthony Parker, Alonzo Gee, Christian Eyenga e Manny Harris fazendo parte da rotação das alas na temporada 2010/2011. Nem ter sido dispensado pelo Spurs após o fim de seu primeiro contrato com a franquia texana, assinado pouco tempo antes dos playoffs de 2011.

Mas Green soube tirar forças da frustração. O jogador manteve-se aguardando uma oportunidade enquanto passou pelo Erie BayHawks e pelo Austin Toros na D-League, a liga de desenvolvimento da NBA, e, assim que surgiu a chance, assumiu a titularidade do Spurs quando Ginobili se machucou e James Anderson não deu conta de substituí-lo na temporada 2011/2012. Desde então, a posição 2 tem um dono na equipe texana.

O problema de Green foi lidar com a responsabilidade. Finalmente tendo um papel relevante em uma equipe, o ala-armador não aguentou o peso dos primeiros playoffs de sua carreira. Depois de converter 43,6% nos arremessos de três pontos ao longo da temporada 2011/2012, o jogador viu seu desempenho despencar no mata-mata, quando acertou “apenas” 34,5% dos tiros que tentou do perímetro. Na derrota por 4 a 2 para o Oklahoma City Thunder, na série final da Conferência Oeste, o índice foi ainda pior: 17,4%. Patético para um especialista.

Após detectar o problema, a comissão técnica do Spurs teve um ano para deixar o jogador mais pronto. E, sem dúvidas, a maior maturidade e a maior experiência de Green colaboraram. Hoje, o atleta é outro, com mais confiança para bater bola, comandar o pick-and-roll e arriscar infiltrações. Mas é em sua especialidade que a evolução fica clara: o camisa #4 teve aproveitamento de 42,9% nos arremessos de três pontos na temporada regular, 50,5% nos playoffs e assustadores 67,9% na série contra o Miami Heat, válida pela final da NBA.

Nos 14 jogos que fez nos playoffs na temporada passada, Green converteu um total de 20 bolas de três pontos. Neste ano, só nos quatro jogos contra o Heat pela série decisiva, ele já acertou 19. É bom olhar para o gráfico de arremessos do ala-armador em uma final de NBA e ver, enfim, o verde como cor predominante no perímetro:

Green

Green teve de superar frustrações e desenvolver sua confiança antes de causar impacto em uma série decisiva. Agora, me arrisco a dizer que, se o Spurs levar o troféu, o ala-armador tem de entrar no debate sobre o MVP das finais. De dispensado por um Cavaliers em reconstrução a peça-chave de um campeão do Oeste, passando pelo rótulo de pipoqueiro. Mais um exemplo de sucesso da franquia texana ao desenvolver seus jogadores.