A mulher de malandro

Em 21 dias, Magnano anuncia os convocados para as Olimpíadas

Respeitável público,

A presença de Nenê e Leandrinho em Londres é pule de dez. Embora o técnico da seleção, o argentino Rúben Magnano, faça mistério, a dupla que se recusou a atuar no Pré-Olímpico de Mar del Plata, alegando as mais esfarrapadas desculpas, estará em solo bretão defendendo a camisa canarinho. A lista oficial sai no próximo dia 17 e, de acordo com o misterioso treinador, antes disso nenhuma palavra será dada sobre o assunto. Mesmo assim, Magnano se entrega quando diz que ninguém é dispensável, num claro indício de que pretende contar com o que considera força máxima em Londres, incluindo aí os dois jogadores que atuam na NBA.

Mas a situação pode ser um pouco mais complexa. Não faz muitos dias, o presidente da CBB, Carlos Nunes, veio a público e bancou Nenê e Leandrinho entre os 12 convocados. O desvario e o anti-profissionalismo dos nossos cartolas estão longe de me surpreender, então uma declaração desnecessária e que não deveria partir de quem partiu é o menos grave neste imbróglio. O caso pode ser mais grave: penso que a decisão de tê-los em Londres pode não ter partido de Magnano, que já não fala a mesma língua dos manda-chuvas da CBB. Óbvio que isso não passa inicialmente de uma especulação, mas faz certo sentido se pensarmos que Magnano enfrentou o mesmo problema quando treinava a seleção da Argentina. Na ocasião, o ala Marcelo Nicola e o armador Juan Espil pediram dispensa de um simples Campeonato Sul-Americano e jamais tiveram outra oportunidade com o técnico. Tudo bem que Nicola e Espil não tinham importância alguma para os argentinos, tal como Nenê e Leandrinho têm para as aspirações brasileiras em Londres. Contudo, Magnano é um treinador rigoroso e vencedor o suficiente para mandar às favas quem bem entender. Outro fato que chama a atenção é que o treinador andou meio fora de cena, leia-se ausente da cena basquetebolística nacional, algo raro desde que assumiu a prancheta em Pindorama. Pode ser uma coincidência, talvez ele tivesse mesmo muitos problemas a resolver em seu país, mas até que se prove o contrário…

Há alguns meses escrevi aqui que não gostaria de estar na pele do treinador na hora de fazer a convocação. Continuo sem ter uma opinião formada, mas tendo pro lado que apostaria nos que classificaram o Brasil em Mar del Plata, deixando de fora a dupla que no momento mais difícil preferiu pular fora do barco. Para alguns, isso poderia minar desde já uma possível briga por medalha, como se com Nenê e Leandrinho esta fosse quase que uma certeza absoluta. Sou avesso a nacionalismo, logo usar expressões como “amor à pátria” me soa como sentimental demais e não contribue para o bom debate, mas acho que os garotos – alguns já nem tão garotos assim – que garantiram a vaga merecem estar na Inglaterra. É difícil que aconteça, impossível, não: imaginem os dois desertores convocados e pelo menos um deles declinando o chamado de Magnano. Estaríamos assumindo o grotesco papel da mulher de malandro, aquela que tanto apanha e não larga o marido. Em outras palavras, uma autêntica vergonha histórica e que, infelizmente, corre o risco de acontecer.

Publicado em 26/04/2012, em Interferência e marcado como , , . Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. Discordo de cada palavra!
    É incabível uma comparação com o fato da Argentina devido ao fato da importância dos jogadores lá.
    Acredito que Magnano não é manipulável e, se o grande treinador que tem demonstrado ser, vê o esporte como algo mais que patriótico, e vai contar com “força total em Londres” (frase dito logo após a classificação.
    Não estou disposto a julgar os motivos da dispensa de Leandrinho e Nene, mas além de cidadãos brasileiros eles são profissionais e fizeram uma escolha, total direito dele.
    Compreendo que pessoas que não entendam muito sobre basket tenham uma opinião mais patriótica, e desejando encarar a competição com quem nos representou na conquista da vaga pra ela. Mas aos que compreendem o esporte, que convivem com ele, é quase inadmissível isso. Acreditar que o Brasil consegue mais do que passar da primeira fase sem Leandrinho e Nene é ilusão. Magnano sabe disse, é competitivo, não é brasileiro, ele quer vencer, ele quer Leandrinho e Nene.

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