Entrevista – Valdir Barbanti – Parte II

Excepcionalmente hoje, o Passando a Limpo será um pouco diferente. Eu sei que eu havia prometido a última parte da entrevista para segunda-feira, mas uma pequena mudança fez com que ela precisasse ser postada hoje. Então, o Passando a Limpo deste domingo será a segunda parte desta interessante entrevista com Valdir Barbanti, ex-preparador físico da seleção masculina de basquete.

Se você perdeu a primeira parte desta entrevista, clique aqui e confira!

Spurs Brasil – Em 92, nos Jogos Olímpicos de Barcelona, vocês enfrentaram talvez aquela que foi a melhor seleção de todos os tempos nos esportes coletivos. Como foi essa experiência de ter enfrentado Michael Jordan, Larry Bird, Magic Johnson?

Valdir Barbanti - Esse pessoal todo que jogou nos Estados Unidos, era o pessoal que a gente admirava, eram os ídolos dos nossos jogadores. Uma vez o Oscar falou assim: “Quase que eu entrei na quadra com um caderninho e um lápis na mão pra pedir autógrafo”. Quer dizer, o respeito era muito grande, porque era as vedetes do esporte mundial, eram os grandes nomes, e o nosso pessoal tinha esses jogadores como grandes ídolos. Então, foi uma coisa interessante, foi legal jogar contra esses caras. Claro que eles eram extremamente superiores a nós, mas, de qualquer forma, a honra de jogar com os caras que a gente admira, que a gente tem como ídolo é uma coisa fabulosa. Então, claro, ninguém entrou achando que ia derrotar aquele time, porque ele era imbatível, mas por outro lado, entrou pra fazer o melhor e oferecer a maior resistência possível. Mas eram 12 jogadores que eram os melhores do mundo, e não tinha jeito de ganhar deles, e ninguém iria ganhar daquele time, nem a seleção do resto do mundo acho que ganharia daquele time. Foi pra nós uma honra, foi uma coisa como eu falei, uma coisa de entusiasmar e, de uma certa forma, honrados de poder jogar contra aqueles que a gente achava que era os melhores do mundo e que a gente tinha admiração. Quer dizer, a vontade era essa mesmo, eu queria a camisa deles pra guardar de recordação, queria um autógrafo, porque caramba, são os melhores do mundo, que bacana a gente jogar contra eles Agora, eu acho que aquele time era imbatível, porque eram 12 jogadores de altíssimo nível, e a gente ficava maravilhado com o que eles faziam na quadra. E contra nós não foi diferente, eles deram um show, como deram um show contra todo mundo.

SB – Você teve oportunidade de ver como era o relacionamento das grandes estrelas americanas?

VB – Não. Eles ficavam em hotéis separados, eles não ficavam nem na Vila Olímpica, então a gente nunca teve contato, porque eles ficavam em lugar separado. Então, nunca tive chance de saber como eles se relacionavam, como eles eram.

SB – A preparação física do basquete brasileiro evoluiu muito desde a época que você fazia parte da equipe e em que aspectos ela ainda deixa a desejar?

VB – Eu acho que ela evoluiu bastante, mas não evoluiu tanto do ponto de vista técnico, mas evoluiu no sentido de aceitação da preparação física. Desde 87, quando nós ganhamos o Pan-americano, ficou evidente que um time bem preparado ele enfrenta qualquer um do mundo, e nosso time mostrou isso porque tava muito bem preparado fisicamente. A partir de então, quase todo clube, mesmo as categorias de base, juvenil, infanto, infantil começaram a valorizar a preparação física, de saber que isso é uma parte importante do processo do basquetebol. Eu dei muitas clínicas logo depois do Pan-americano tentando colocar o valor da preparação física, o quanto isso ajuda no jogo. Então, acho que mudou muito e mudou pra melhor. Agora, eu acho que não evoluiu tanto, hoje a questão é mais técnica, é preciso mudar alguns paradigmas que eu vejo que está um pouquinho exagerado, por exemplo, na década de 90, com o advento da musculação, com a popularidade da musculação, essa cultura foi levada também para o esporte. Eu acho que isso é foi coisa muito ruim porque, não que a musculação não seja boa, mas muitos esportes ainda acham que toda preparação só deve ser feita em função da musculação, o que tá errado. Então, hoje eu acho que é um paradigma que eu acho que precisa ser discutido, porque preparação física não é só fazer musculação, não é só trabalhar força, precisa de outros componentes também. Então, acredito que hoje está meio estagnado, está faltando melhorar e discutir o paradigma. Mas evoluiu bastante perto do que era naquela época e perto do que é hoje. Hoje tem preparação física, é parte importante, é aceitável e todo mundo sabe que precisa dela, mas agora tá precisando um pouquinho a mais de um processo pra torná-la um pouco mais eficiente.

SB – Você acredita que nossa seleção atual não chega em quadra ao potencial que ela tem no papel? Porque?

VB – Acho que falta preparação, falta treinamento, falta reunir o grupo e se preparar, porque qualidade os jogadores têm. São alguns jogando na NBA, vários jogando na Europa, não é possível que um time desse não tenha qualidade para ser um dos melhores do mundo. Agora, lamentavelmente, eu acho que não tem sido dado a atenção para uma preparação apropriada, não pode reunir os jogadores 15 dias antes de um campeonato mundial, antes de um pré-olímpico pra treinar, por que 15 dias, um mês que seja, é muito pouco, então acredito que o que falta hoje é essa capacidade de reunir o grupo. Talvez seja até impossibilidade, porque cada um joga em um lugar e são profissionais, mas se reunir esse grupo e treinar de maneira desejada não vejo como este grupo não possa estar entre os melhores do mundo. Falta é planejamento, treinamento e reunir o grupo pra treinar.

SB – Você é a favor da escolha de um técnico estrangeiro na seleção masculina?

VB – Olha… Eu não, eu sou muito nacionalista, eu acho que o Brasil tem técnicos capacitados, competentes, que podem dar conta do recado. Quando acontecem muitas desavenças, muitos desacordos, a presença de um estrangeiro eu vejo como útil, porque não está havendo um impedimento nacional para que possa ser gente daqui. Mas o Brasil até hoje teve sempre bons treinadores, de forma que acredito que ainda existam bons treinadores. Agora, às vezes é importante uma renovação, ou vindo gente de fora pra mudar um pouco essa característica, mas eu ainda acredito que o Brasil tem treinadores muito competentes pra poder fazer o mesmo trabalho. E, além do mais, conhecer os jogadores brasileiros como os treinadores brasileiros acho que ninguém conhece, mesmo os que jogam lá fora, os treinadores brasileiros conhecem muito bem esses jogadores, o que facilitaria bem o processo. E trabalhar também com brasileiro depende de cultura, a nossa cultura é diferente. Então, acho que isso favorece pra seleção que tenha um treinador nacional e não vindo do estrangeiro. Treinar uma equipe também envolve um aspecto cultural, e nem sempre um estrangeiro conhece bem a cultura nossa pra se dar bem. Tem muitos treinadores que não se dão bem aqui, depende muito da cultura nossa, que tem que ser bem conhecida. Mas eu sou favorável a usar um treinador nacional, porque eu acredito que aqui tem gente competente pra ser treinador da seleção.

SB – Você acredita na classificação da seleção masculina para as olimpíadas de Pequim?

VB – Não. Eu acredito no potencial, acho que essa seleção tem potencial pra ir para os Jogos Olímpicos, mas, de qualquer forma, se esse grupo não for preparado, se esse grupo não treinar com tempo suficiente, eu não acredito. Agora, é um grupo de potencial bom. Se fizer isso, eu acredito que pode se classificar.

SB – Nas últimas partidas da seleção, com os problemas de Nenê e Anderson Varejão, Tiago Splitter foi o titular do garrafão. Você conhece o jogo dele? Você acredita que ele pode dar certo na NBA?

VB – Ah, eu conheço, ele já tem experiência, jogou na Europa, eu acho que é um excelente jogador. O problema é que a seleção não teve oportunidade, talvez, de ter o tempo necessário pra treinar essas grandes estrelas, porque é preciso ter maior entrosamento entre eles, e isso é tempo de treino e tempo de treino junto, porque cada um joga em um clube, então eles não têm entrosamento. O Nenê joga no Denver, o Leandrinho joga no Phoenix, um outro joga em outro estado, outro joga na Europa, é diferente. Pra entrosar esse pessoal, tem que reuni-lo e treinar junto, fazer as jogadas junto e como eles não tiveram oportunidade de fazer isso. É a grande dificuldade que a seleção tem. Reúne-se com muito pouco tempo para esse entrosamento ficar bom. Mas, de todos esses aí, mesmo os que não são da NBA, eu acho que são excelentes jogadores. O Guilherme não está na NBA, ele joga na Europa, mas é um excelente jogador. Eu acho que daria muito certo pra qualquer um deles estar na NBA, como está dando certo para o Leandrinho, que é um craque, para o Nenê, que é um cara considerado pra caramba, o próprio Tiago, acho que ele vai se dar bem, acho que ele tem tudo para se dar bem, dependendo das chances que ele tiver de jogar na NBA e dependendo da equipe que ele for, mas eu acho que o próprio Alex, que está jogando na Europa, o Alex disputou aí agora a final do campeonato europeu, você imagina a experiência que esses caras têm. Agora, eles são jogadores jogando em um time que jogam de outra maneira, quando eles vêm pra seleção, eles tem que treinar da maneira que o treinador quer, e entrosar com esses caras que estão cada um em um lugar, alguns até se conhecem, mas não têm jogado mais juntos. Eu acho que o Brasil tem 12 jogadores que qualquer um poderia ir para a NBA e se dar bem, o problema é que eles não tão dando certo na seleção por falta de tempo de entrosamento, de treinamento, eu acho que é muito pouco tempo. Esse grupo tem se reunido com muito pouco tempo para treinar, e eu acho que seleção nenhuma, salvo raras exceções como os caras craques da NBA, que podem se reunir com duas semanas e são tão superiores aos demais que acaba com duas semanas ou três de treinamento dão certo, mas não é o caso nosso. Nós precisaríamos de mais tempo pra entrosar os jogadores, mas não duvido que os 12 jogadores da seleção teriam lugar pra jogar na NBA, nos vários clubes da NBA.

SB – Você acompanha a NBA atualmente? Qual a sua equipe preferida e o jogador?

VB 0 Olha, eu acompanho de uma maneira de acompanhar todos os jogos e ficar seguindo, mas os playoffs eu gosto de acompanhar, porque nos playoffs você tem chance de ver as equipes que são melhores classificadas, então aí tem jogo de alto nível. Eu to acompanhando os playoffs ai e vejo alguns jogos. Eu gosto de várias equipes, eu gosto muito das equipes tradicionais dos Estados Unidos, que já tem certa tradição no basquetebol. Eu gosto muito do Boston Celtics, porque tem tradição, embora tenha passado por um mal momento recentemente. Eu sempre gostei do Chicago Bulls, embora no momento também não tem a equipe que teve nos anos 90. Enfim, não tem uma equipe predileta, eu gosto de ver o bom jogo, eu gosto de ver aquele jogo de show, aquele jogo que é decidido no finzinho, que é bem disputado. Eu gosto de ver os grandes lances e os grandes jogadores. Eu gosto de ver o Lakers jogar, o Lakers sempre teve uma tradição de bom basquetebol, desde de épocas anteriores. No Lakers, antigamente, jogava um cara chamado Kareem Abdul-Jabbar, que foi um excelente jogador, um craque, depois Magic Jonhson, hoje tem um cara que eu adoro ver, o Kobe Bryant. Então, eu não tenho um time predileto, eu tenho jogadores que eu gosto de ver, os jogadores fantásticos, e eu gosto de assistir bons jogos, não importa muito quem ganha ou quem perde, eu não tenho um time que eu sou apaixonado, eu gosto de assistir o basquete de alto nível, com equipes que sejam bastante equilibradas, de ver bons jogadores.

Essa foi nossa primeira entrevista aqui no Spurs Brasil. Queria agradecer o Valdir Barbanti, que nos atendeu com muito carinho, contando um pouco de sua experiência como membro da comissão técnica da seleção, e gostaria de saber de vocês leitores o que acharam. Deixem suas dicas, sugestões ou críticas nos comentários. Sua participação é importante para sempre buscarmos o melhor.

Obrigado.

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Sobre Victor Moraes

Formado em Jornalismo no ano de 2012 pela Universidade Metodista de São Paulo. Fanático por esportes, sobretudo o basquete, onde também se arrisca a jogar uma peladinha com os amigos. Tem Tim Duncan como maior ídolo e se orgulha de fazer parte da equipe do Spurs Brasil desde a criação.

Publicado em 22/06/2008, em Entrevistas, Passando a limpo. Adicione o link aos favoritos. 2 Comentários.

  1. Muito obrigado Valdir, e excelete trabalho Victor!

  2. Willians Augusto de Oliveira

    Sr. Valdir, gostaria de saber em qual livro seu tem as definições do jogo! Gostei da sua entrevista e creio que abriu muitas portas para os Professores de Educação Física.

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